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A poesia de Santino Gomes de Matos

Por Rodrigo Vinícius

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Santino Gomes de Matos | GD'Art

A poesia de Santino Gomes de Matos, tal como a essência de uma flor exala seu aroma, desse modo se corporifica no espaço, e a brisa alegremente vai anunciando sua presença. Sua poesia se revela lírica, posto que traduz, com nuances e profundidades, o sentimento humano, abrindo veredas para a consciência, que, cheia de mistério, almeja, por natureza, conhecer.

Teve Santino uma dupla missão: a do poeta e a do professor. E, em ambas, de forma definidora, encontramos essa dimensão do conhecimento como sensibilidade poética, fundada na língua e na cultura como meio de expressão e como esforço intelectual de elevação. Para aclarar esse percurso poético, vamos adentrar o solo da poesia.

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A poesia, segundo Octávio Paz, é – “metamorfose, transformação, operação alquímica [...]”; e, para Mallarmé, a poesia – “constitui a única tarefa espiritual”; para Heine, a poesia – “é uma doença do ser humano, como a pérola nada mais é que a substância produzida pela ostra”. Essas três formulações sobre a poesia são exemplares por revelarem um aspecto fundamental da existência humana: a centelha criativa que transmuta a vida, acolhendo sua substância dual – alegria e tristeza, prazer e sofrimento, amor e ódio – para, fundamentalmente, revelar, por entre o corpo sutil da realidade, aquilo que seja espiritual. Desse modo, a poesia seria, no dizer do filósofo Heidegger, a habitação autêntica do Ser.

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Santino, que, por nome – raiz latina que vem de Sanctus, revela sua inclinação ao virtuoso –, tem no seio de sua expressão a poesia como caminho. Se o Sertão, em Guimarães Rosa, é veredas, que do cerrado de Minas Gerais se espraiam, na poesia de Santino, o corpo poético é ​um caminho cheio de florações diamantinas, e, em ambos, no Rosa a metafísica, no Santino o espiritual, são sinônimos de uma mesma verdade: a da revelação.​

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Octavio Paz ▪️ Source: ensayistas.org

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Santino e Yone Gomes de Matos

​​O poeta, como um demiurgo, convoca com sua voz a eclosão dos seres. Retira-os do anonimato, nomeia-os. Dá-lhes um espaço, um corpo, uma realidade. Revela-os com sua hierofania. Em Oração dos Humildes, Santino convoca – “Venha a canção áspera e rouca...”, “Venha a canção dos jangadeiros do mar”, “Venham cantigas da beira do rio”, “Venha, na noite quente”, “Venham todas as vozes humanas”. Em Olhos Mortos Dentro da Tarde, o poeta nos chama para o fenômeno da vida – “Por que levam Leocádia quase a correr?”, “... persegue o caixão branco e azul, azul e branco, branco e azul, azul...”, “Leocádia, morta e virgem, aparecerá estrela no engaste azul...”, “Ela não conhecia Bilac”, “A morte não entrava nos planos de Leocádia”. E o poeta vai ainda mais fundo na vida, em Sarjeta – “A chuva foi um prazer para os garotos de rua. / Saíram todos para armar embarcações de jornal e soltá-las na enxurrada...”, “Eles querem imitar a vida, sem nada conhecerem da vida”. No leito sujo da sarjeta corre a água. Barcos improvisados com papel são lançados na confusão das águas. Por acaso, não estará no barco um Odisseu qualquer tentando retornar para sua origem? Crianças de rua, pobres, sujas – que, na luz molhada pela chuva, experimentam uma alegria temperada pelo sofrimento.​

E o que é a vida para o poeta? Talvez possamos arriscar uma hipótese: no verso de Campo das Amoras, o poeta diz – “A dor aqui não tem o sentido comum de pungência e de espinhos. / Existe como estado de vida, / Mas se anula como estado de alma.” Arrisco ao pensar que talvez Santino estivesse de acordo com Sidarta Gautama, o Buda, e com Jesus, o Cristo, para os quais – “A vida é sofrimento”, a primeira nobre verdade do budismo, e – “A felicidade não é deste mundo”, no sentido cristão de que a vida é uma tensão de opostos, ou, no sentido grego, um ágon (ἀγών) – uma luta. E essa dor, que é estado de vida, na alma, por efeito de sua candência espiritual, se transmuta, neutralizando-a, alcançando um ponto de ataraxia (Ἀταραξία), onde a alma se eleva para além das influências da dualidade.

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No entanto, apesar de a alma alçar-se para além das influências da dualidade, o poeta nos mostra que é condição do humano o compartir do mesmo destino humano, diante da dor, sentir-se. E esse ato de sentir-se nos leva ao caminho da consciência.

​Carta de Pereira da Silva a Santino Gomes de Matos​

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No alvorecer de Vozes Íntimas, segunda parte do livro Oração dos Humildes, o poeta logo anuncia em Vocação – “Quando menos esperei, estava em cena. / O pano levantou-se...”, “Ficou-me apenas a impressão áspera de que fui empurrado. / Não resta dúvida de que me empurraram. / Toca a trabalhar, toca a representar algum papel!”. A luz dele abriu inúmeras veredas: como esposo, pai, poeta, professor, jornalista, e havia um profundo sentimento de humanismo e, sobretudo, uma autoconsciência fundamental. Em Vocação, descobrimos por dentro do poeta o homem:

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Às vezes, tenho vontade de gritar,

dirigindo-me a um diretor de cena invisível:

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– Olhe como não tenho vocação para este número!

– Falta-me clima, falta-me ambiente...

– O escândalo de cimento dos arranha-céus produz-me vertigens.

– A minha alma não se dá com paisagens de pedra.

– Os “cocktails” me ardem como brasa na garganta.

– Lido mal com taças de champagne e com mulheres que ostentam, em tintas, a alma toda inteira.

 

– Faltam-me dedos para caudatário de honrarias ocas.

– Não sei semear misérias e, depois, passar sobre elas, de viseira erguida, porque me deram o caminho do triunfo.

 

Olha, Sr. Diretor, como falta unto à minha espinha.

 

– Como são pobres as minhas reservas de desprezo às virtudes antigas, aos sentimentos morais caducos.

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– Como é mesquinho o celeiro de ódios no meu coração, para a luta feroz que os homens lutam, guerreando-se, matando-se, destruindo-se.

 

– A etiqueta de homem moderno, século XX, grudou-se mal em minhas costas.

 

– A carapuça de civilizado impede-me de dormir.

 

– Quero alegrias íntimas, puras, sossegadas, dentro de movimentos naturais.

– Quero ritmos de alma, da alma da minha gente, que se estiola na dureza dos asfaltos.

– Quero paisagens vivas, de muito sol e muito espaço.

 

– Sr. Diretor, não sei mover-me.

– Não nasci para a camisa de força de uma civilização de ismos.

 

"Toca a trabalhar. Toca a representar algum papel!".

 

Empurraram-me.

Não resta dúvida de que me empurraram.

 

A corrente subterrânea da minha índole

foi como um riacho de águas ingênuas,

que encontrasse, logo ao nascer,

um sumidouro na areia.

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O poeta, nadando contra a maré da sociedade moderna, iluminando com sua passagem os recantos por onde passa, deixa nos sinais de sua vida e nas inúmeras obras, tanto literárias (poesias, contos, textos jornalísticos, textos acadêmicos) como no profundo legado deixado na educação, o convite de um homem superior. E esse é o convite fundamental da poesia de Santino, que aqui transcrevo dos versos de Para Além da Montanha, estendendo para o leitor o mesmo convite do poeta:

O instinto da luz me encoraja e me anima.
Não sei se vou de rastos, se vou ferido,
se vou dilacerado.

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Eu sei que por detrás da massa negra das
sombras há sol, há calenturas, há descanso.

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Venham comigo os que desesperam.
Os que mais sentem o travor da maldade
dos homens, os que se constringem,
num círculo de ferro,
nesta era brutal de ferro
e de cimento armado.

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O toque humano está na cadeia das mãos,
na ajuda de Cirineu aos que tropeçam,
no amparo aos que tombam no meio do caminho.

​

Venham comigo!

​

Não olharemos para os abismos
escancarados do desespero.
Não sei se vou com a alma retalhada,
não sei se há lama nas minhas pupilas,
de tanto ver misérias.

​

As lâminas das máquinas cortam, retalham
a epiderme multissecular da humanidade.
As moendas trituram destinos.
Mas não é preciso que vocês se percam,
vesgos da vingança feroz que barbariza.

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Venham comigo!
Entrelacemos as mãos para a escalada
pedregosa torturante, cheia de passos de sangue.

​

O toque humano está na cadeia
dos braços dados, e a chancela de glória
nos olhos incendiados de febre e de fé!

​

Eu sei que por trás da massa negra
das sombras há sol, há calenturas,
há descanso, há uma luz que nunca,
nunca se apaga.

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Santino Gomes de Matos | GD'Art

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E a luz do poeta nunca se apagou. Arde feito sol, aquece e ilumina, através do seu exemplo de vida e no sabor de seus versos. Sua vida e sua obra são testemunhos dessa luz que nunca, nunca se apaga.

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Artigo escrito por:

Rodrigo Vinícius da Silva

Poeta paranaense, graduado em Psicologia pela UNINOVE (SP), em Filosofia pela UNIOESTE (PR) e em Letras Clássicas pela UFPB. Graduando em História pela UEPB.

E-mail: azulturquesacordemar@gmail.com

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Publicado na Revista: Carlos Romero, Ambiente de Leitura: Literatura em prosa e verso. Disponível em: <https://www.carlosromero.com.br/2026/08/a-poesia-de-santino-gomes-de-matos.html>.

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