top of page

Santino: vida e obra de um poeta diamante

Por Rodrigo Vinícius

Santino-Gomes-Matos_Publicacao-Revista.jpg

amante do dia:
diamante.
de luz feito
de amor talhado
manto de estrelas
que na terra desce para
celebrar a luz

Santino Gomes de Matos | GD'Art

Santino Gomes de Matos, poeta, jornalista, filólogo, professor, homem de cultura e letras, nasceu na cidade de Icó, no Estado do Ceará, em primeiro de março de 1908. Demonstrou desde cedo os lampejos de genialidade: aos 4 anos de idade lia perfeitamente; aos 6 anos, conversava fluentemente em francês. Aos 12 anos já colaborava com a imprensa local. Teve seu​

Santino-Gomes-Matos.jpg

Santino Gomes de Matos, professor, filólogo, jornalista, escritor e político cearense, reconhecido como uma das principais referências intelectuais e culturais da cidade de Uberaba (MG)

primeiro livro publicado aos 21 anos.

 

Foi professor de Latim, Português, Francês e Inglês. Ministrou aulas no ensino superior. Foi convidado para lecionar no Estado de São Paulo, e foi em Uberaba, no Estado de Minas Gerais, que em 1935 ingressaria no jornalismo, sendo convidado para ocupar cargo de redator-chefe na Gazeta de Uberaba.

Santino foi peça fundamental na fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino. Contribuiu não apenas a formação de professor, com sua experiência no ensino, mas também a sua famosa biblioteca particular, de mais de 10 mil volumes. Biblioteca com livros em várias línguas.

​​

No que tange à literatura foi um dos primeiros convidados a participar da fundação da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ocupando a cadeira nº 2. O conjunto de sua obra o levou também para a Academia Municipalista de Letras de Belo Horizonte.

Santino, como contista publicou o livro Flagrantes ao Sol do Norte, e teve vários contos premiados em concursos diversos pelo Brasil. No campo da poesia publicou três livros: Oração dos Humildes, Procissão de Encontros e Céu Deposto, deixando outros livros inéditos. Teve uma trajetória discreta e silenciosa, apesar de brilhante.

Quando da publicação de Oração dos Humildes, em 1940, data em que completava 32 anos, a imprensa se pronunciou, em várias vozes, dizendo tratar-se de "obra prima em duas áreas, prosa e poesia". Sobre a beleza dos seus versos e sua sensibilidade poética, manifestaram-se grandes vultos da literatura nacional, como Monteiro Lobato, Afrânio Peixoto, Filinto de Almeida, e entre tantos outros, o poeta paraibano Pereira da Silva.

​

Carta de Pereira da Silva a Santino Gomes de Matos​

Pereira da Silva.jpg

Pereira da Silva, conhecido como o "Príncipe dos Poetas Paraibanos", foi um advogado, jornalista e poeta simbolista, primeiro paraibano a ocupar uma cadeira na ABL. Fonte: ABL.

O ano era 1940, à época Pereira da Silva envergava o fardão da ilustre Academia Brasileira de Letras, para a qual havia sido eleito em 1933, tomando posse em 1934. Já era poeta amplamente reconhecido, além de jornalista. Havia publicado Vae Solis (1903), Solitudes (1918), Beatitudes (1919), Holocausto (1921), O Pó das Sandálias (1923), Senhora da Melancolia (1928) e estava a publicar Alta Noite (1940), seu último livro.

 

O poeta leu Oração dos Humildes e ficou encantado. Havia encontrado uma sensibilidade profunda. Um humanista preocupado com a dor humana. Um homem com pendor ao espiritual. Um verdadeiro poeta. Tomou da pena e em papel timbrado da ABL imortalizou a seguinte carta:

​​"Oração dos Humildes é um dos mais belos trabalhos que já tive a fortuna de ler ou melhor de ouvir; porque, na realidade, tudo é vida impressiva e expressiva, em cada estrofe de qualquer dos seus poemas. A fusão rítmica de sua alma com as outras é de tal intensidade que você se faz, de fato, intérprete dessa angústia de ser ou de não ser a que nenhum espírito, realmente humano, pode ser indiferente. Essa faculdade de subjetivação é tanta, na sua imaginação criadora, que as próprias cousas também 'vivem' nela, com as suas vicissitudes inevitáveis, que são as do 

mundo contingente. Só um verdadeiro poeta sente e realiza, com a espontaneidade e expressividade do seu livro, tanta cousa bela e irresistivelmente comunicativa. Receba, pois, o meu abraço comovido pela Oração dos Humildes: que Deus ouça!"

Carta_Pereira da Silva_Parte-1.jpg
Carta_Pereira da Silva_Parte-2.webp
YONE FORMATURA.png

Yone Passaglia Gomes de Matos, professora da Escola Normal Oficial de Uberaba, filha de italianos, esposa de Santino Gomes de Matos.

Fonte: santinogomesdematos.com.br

Oração dos Humildes, título da obra poética, foi uma obra dividida em três partes, a saber – Oração dos Humildes, Vozes Íntimas, Paisagens do Meu Esquecimento, e teve dedicatória à esposa e amor da vida do poeta – Yone Passaglia Gomes de Matos. Obra de profundidades, como demonstrado pelo poema homônimo, o qual citamos para deleite do leitor:

Oração dos Humildes


Venha a canção áspera e rouca

que rebenta do peito tostado dos jangadeiros,

toda vibrada em bordões.

 

O mastro da jangada,

enrolado no lençol branco da vela murcha,

é como um círio apagado de um culto morto.

 

Os pescadores cantam para as vagas,

para as garças marinhas, para a noite,

que vai vestir o seu vestido mais lindo,

de gata borralheira.

 

Venha a canção dos jangadeiros do mar.

 

Venham cantigas da beira do rio,

das lavadeiras que deixaram em casa

os filhinhos e os ninam de longe,

de peitos amojados, com uma voz

intraduzível de mães ausentes.

 

Venha a modinha da moça tísica da fábrica,

que aproveita uns restos de pulmão

cantando, cantando, cantando,

para despedir-se da vida ainda com seu sonho.

 

Venha, na noite quente,

a amargura bandoleira dos boêmios,

nas serenatas de violão, de cachaça e de cadeia.

 

Venham os pregões automáticos dos vendedores

ambulantes, a discurseira infame e ridícula

dos camelôs e a cantilena monótona dos cegos,

numa lamúria gasta, que passa um contrabando

de dor à piedade alheia.

 

Venham todas as vozes humanas,

de sofrimento humano e real.

 

Penetrem o meu coração e vibrem nos meus

lábios, que eu quero rezar alto

a oração dos humildes.

image1786662976.jpg

GD'Art

Sentimos no ritmo do verso, no chamado do poeta... as vozes dos humildes subindo e descendo, como ondas de um mar, como uma revoada de pássaros, como a chegada dos múltiplos raios do sol... e a poesia se espraia no coração místico dos seres. Para um próximo artigo nos aprofundaremos na obra do grande poeta. Por ora, pelo escopo e brevidade do perfil, nos fica o dever de apresentar a vida e obra do poeta, assim como o reconhecimento de seu brilho.

Hoje, a vida e obra do poeta, é chama viva graças ao trabalho incansável e amoroso de sua filha – Maria Isabel Gomes de Matos, a qual mantem um site onde podemos ter acesso ao diamante raro que foi a vida e obra do poeta. Diamante oculto que precisa ver a luz de novos caminhos.

Rodrigo Vinicius.jpg

Artigo escrito por:

Rodrigo Vinícius da Silva

Poeta paranaense, graduado em Psicologia pela UNINOVE (SP), em Filosofia pela UNIOESTE (PR) e em Letras Clássicas pela UFPB. Graduando em História pela UEPB.

E-mail: azulturquesacordemar@gmail.com

​

Publicado na Revista: Carlos Romero, Ambiente de Leitura: Literatura em prosa e verso. Disponível em: <https://www.carlosromero.com.br/2026/08/santino-vida-e-obra-de-um-poeta-diamante.html>.

bottom of page