
Marco Antônio Guerra Simões
Marco Antônio Guerra Simões nasceu em 1962, na Tijuca, Rio de Janeiro. Filho de um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, herdou o amor pelas palavras ainda cedo. Homem de múltiplos talentos — poeta, compositor, apresentador, mestre de cerimônias —, viveu em Belo Horizonte, onde seus dons poéticos floresceram, e hoje mora na península de Maraú, na Bahia, cenário que inspira sua obra.
Um olhar sobre a poesia de Santino Gomes de Matos
Antes de tudo, registro minha gratidão ao homem e ao professor que, ao longo de tantos anos, lutou pela cultura e pelo enobrecimento da leitura – dedicando a vida a formar, com a mesma paciência de quem lapida um verso, gerações inteiras de leitores. É com esse respeito que me debruço sobre alguns poemas de sua autoria, na tentativa de entender o que os sustenta.
Há poetas que escrevem para o mundo, e há os que escrevem, sobretudo, para uma só pessoa. Na minha opinião, Santino Gomes de Matos pertence a esse segundo grupo – não porque tenha ignorado outros temas (a obra também alcança o social e o existencial), mas porque o endereço afetivo de sua poesia, mesmo quando fala de outras coisas, retorna sempre para Yone, presença que atravessa os livros como um eixo silencioso.
O soneto "Pressentimento", dedicado à esposa, é exemplar desse traço. Estruturalmente rigoroso – dois quartetos e dois tercetos, decassílabos, rimas bem marcadas – o poema não se contenta em declarar amor: ele negocia com a dor. O eu-lírico reconhece o sofrimento como parte constitutiva da experiência e aposta no futuro – nos filhos, na prromessa de ventura – como resolução. É uma resolução rápida, quase abrupta: o poema anuncia a superação da dor mais do que a constrói ao longo dos versos. Fica a pergunta em aberto: essa pressa é limite ou é o próprio gesto de fé que o título promete?
Em "Peregrino", a poesia muda de registro e também de disciplina formal: aqui o soneto usa apenas duas rimas ao longo dos dois quartetos inteiros – exigência técnica maior do que a de "Pressentimento". O tom é existencial: uma alma exposta ao vento e à tempestade, que não encontra pouso nem no céu nem em si mesma.
Arrisco aqui, como eco e não como comparação de ofício, dois versos meus que nasceram de um impulso parecido – a tentativa de conhecer alguém pela alma antes do rosto: "Mas há retratos que a alma pinta/ sem precisar de tintas ou espelhos."
Marco Simões
