FRANCISCO HOLANDA MONTENEGRO
Atualizado: há 2 dias
"Crato, 4 de novembro de 1963.
Meu prezado Santino:
Em mãos, sua atenciosa carta de 28 de outubro.
Lembro-me, perfeitamente, daqueles. bons tempos do Seminário. Eu, muito criança, 11 anos de idade, muito tímido, muito maltratado pelo meu irmão mais velho Mária e pela antipatia natural que o Padre Azarias mantinha para comigo e, doutro lado, estimulado pela caridade e pela bondade cativante dos seminaristas mais velhos e pela amizade quase paternal do sempre lembrado padrinho de São João (você) que, certa vez, juntou os seminaristas todos em forma e, como líder da comunidade, marchou em direção do quarto do Padre Prefeito para lançar um protesto veemente contra um castigo que ele me aplicara injustamente, pois, o único crime que eu cometera teria sido o de apanhar do meu irmão mais velho. E lembro-me bem de você, como o meu advogado, falou. Com muita energia, com tanta sinceridade, com tanta lealdade, usando de linguagem tão convincente que deixou o Padre Prefeito atordoado, não tendo outra saída senão a de me liberar do castigo. Creia, meu prezado, que aquele seu gesto magnânimo, revelação de um coração profundamente humano, ficou bem gravado no meu subconsciente e, por mais de uma vez, já tive oportunidade de relatar esse fato aos meus alunos.
Lembro-me ainda do jovem Professor Santino lecionando no "Ginásio do Crato", do Padre Pita. nesse tempo eu já fazi aFilosofia no Seminário.
Dirijo o Colégio Diocesano do Crato, hoje, Instituição Diocesana, desde 1938. Vinte e cinco anos de direção. Toda a minha mocidade foi gasta nesse afanoso trabalho. Como é difícil educar a juventude de nossos dias... A gente sente crescer, dia a dia, a crise de autoridade, numa conspiração lenta e continuada contra as forças vivas da nação. Como tudo isto decepciona o educador bem intencionado, que ainda pensa em formar uma geração nova com valores para os dias de amanhã. Estou deveras cansado. Vocação? Imolação? Sacrifício? O que sei é que tudo tem sido feito com uma única intenção: servir ao meu próximo e ao meu Deus 'Omnia ad majorem Dei gloriam'.
Estou lhe remetendo, junto, o atestado de magistério neste Colégio, exercício de ,agost[erop diamte ps amps de 1031 e 1932, conforme você pediu. O Padre Gomes está pedindo para lhe mandar um abraço e que estará aqui sempre ao seu inteiro dispor
Seu amigo de sempre, Padre Francisco Holanda Montenegro"
Monsenhor Francisco Holanda Montenegro (Jucás, 25 de feveriro de 2013 – Crato, 10 de abril de 2005). Educador e escritor, foi diretor do Colégio Diocesano do Crato por 52 anos, professor da Faculdade de Filosofia do Crato e membro do Conselho de Educação do Ceará. Reverenciado como educador e benemérito, foi também escritor. Com várias obras publicadas, era membro do Instituto Cultural do Cariri.

