ISMAEL GOMES BRAGA
Atualizado: há 1 dia
"Rio de Janeiro, 24 de novembro de 1955.
Exmo. Sr. Santino Gomes de Matos,
De mão amiga, recebi recorte de 'Lavoura e Comércio' com seu excelente artigo 'Viagem
através dos compêndios – Lógica e Gramática', e desejo bater-lhe palmas pelo excelente trabalho realizado.
Realmente a gramática ensina a linguagem como ela é, e não como deveria ser. E a linguagem não é lógica, muitas vezes não é verdadeira, é fruto de nossa ignorância que vai ficando registrada através dos tempos nas impropriedades que escrevemos e falamos. Quando dizemos que 'o sol nasce', 'o sol se põe', registramos apenas um erro de sentidos, uma ilusão que nos pareceu realidade durante milênios, mas que está astronomicamente errada.
Nosso dicionário está repleto de vocábulos formados por falsas aparências. A linguagem depende de pontos de vista, de julgamentos subjetivos. Para o crente é verdadeira a frase "Deus criou o homem, mas para o ateu a frase certa é 'o homem criou deus". Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, mas para outrem o certo seria o homem cria Deus à sua imagem de semelhança.
Ambas estas rases estão certas conforme a convicção de quem as diga. O mais provável, porém, é que ambas estejam erradas, e que não haja mais semelhança entre o Criador e o criado do que entre o relojoeiro e o relógio.
Houve um momento, em que alguns pensadores esperantistas supuseram que o Esperanto poderia ser a primeira língua rigorosamente lógica do Planeta, e entraram a lutar com essa finalidade. Mas encontraram a oposição muito forte do Autor mesmo do Esperanto, que esclareceu o assunto de modo indiscutível: "Se a língua pretendesse ser sempre rigorosamente lógica, ela seria um maquinismo morto e de manejo difícil, porque a inteligência humana não é rigorosamente lógica; temos que criar a língua para os homens e não os homens para a língua. Portanto, a língua tem que possuir modismos, expressões, correntes, palavras vivas e usuais, e não somente frases lógicas'.
Ora, se o Esperanto, criado 'cientificamente' no gabinete, com uma gramática fundamental apriorística, não pôde alcançar esse ideal da lógica perfeita, e tem idiomatismos, palavras ilógicas, embora em número menor do que as outras línguas; como se poderia pela gramática criar o falar lógica para as línguas criadas pelos homens que espontaneamente fabricaram as línguas nacionais?
E se a gramática e o dicionário, saindo da realidade, estabelecessem a linguagem lógica em determinado momento, com a evolução intelectual, ter-se-ja que refazer essa língua inteiramente artificial e sem vida: por que iriam sendo descobertos erros...
E quem escreveria ou falaria tal idioma? Reamente pouquíssimo eruditos.
De todas as invenções humanas, nenhuma é tão útil em seu manejo com a linguagem e nenhuma é manejada com tantos erros de técnica com a linguagem. A imensa maioria das pessoas que empregam a linguagem por todas as finalidades da vida, não possui senão conhecimentos muito rudimentares do idioma que fala: pequeníssimo vocabulário, nenhuma regra de gramática. E mesmo assim esse instrumento tão mal manejado produz os efeietos necessários na prática, faz verdadeiros milagres de colaboração entre as gerações, de unificação espiritual.
Vemos a imperfeitíssima língua hebraica, com seus infinitos idiomatismos, conservar por mais de dois mil anos a unidade nacional de um povo espalhado pelo mundo, até reconduzi-lo à primitiva pátria. Os gramáticos israelitas nesses dois mil anos não tentaram tornar lógica sua língua. Limitaram-se a registrar seus modismos, já usados há mais de dois mil anos, e deixá-los como são.
Era minha intenção inicial apenas felicitar V. Sa. pelo seu excelente artigo, mas me foram surgindo pensamentos diferentes que me afastaram desse tema, para pensar em assuntos parentes, talvez um pouco remotos.
A linguagem rigorosamente certa, parece-me, deveria ser, não apenas lógica no sentido comum de lógica, mas totalmente verdadeira: não deveria ter palavras e expressões que foram e são criadas pela observação imperfeita das coisas. Ora, nosso saber é llimitado e sempre mutável; portanto nosso dicionário e nossa gramática teriam que ser semestrais com o a Lista dos telefones, para serem sempre reajustados à evolução do conhecimentos que vamos adquirindo nos diversos ramos do saber. E como os conhecimentos têm o seu período longo de dúvidas e discussões, raramente chegariam os momentos de podermos publicar essas reformas do dicionário.
Parece-me, pois, que as coisas em linguagem são como são e não como deveriam ser.
Perdoe-me a audácia de escrever-lhe carta tão longa.
Atenciosamente,
Ismael"
Carta de Ismael Gomes Braga a Santino Gomes de Matos
Ismael Gomes Braga (Ubá, 12 de julho de 1891 – 18 de janeiro de 1969). Autodidata, com notável inteligência e privilegiada memória, estendeu-se ao estudo de idiomas: francês, inglês, italiano, espanhol, latim, grego, hebraico. Entusiasmado com o esperanto, tornou-se mestre nesse idioma e um de seus maiores divulgadores no país. Foi também um expressivo divulgador da doutrina espírita, trabalhando intensamente junto à Federação Espírita Brasileira.



