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OSCAR MENDES

31 de jan. de 2024
2 min de leitura

Atualizado: há 2 dias


"Céu Deposto

Oscar Mendes


Tendo estreado há anos com um livro de poemas 'Oração dos Humildes', que foi tão bem recebido por escritores como Monteiro Lobato, Tristão de Ataíde, Levi Carneiro, Pereira da Silva, Antônio Sales, Queiroz Filho, Hélio Lobo, reaparece Santino Gomes de Matos com este "Céu Deposto", em que se encontram sonetos, trovas e versos de forma livre, todos se distinguindo pelo apuro da forma, manejando o autor com habilidade, tanto o verso à maneira clássica como à maneira modernista.


A tônica geral desta atual coletânea de versos é dada logo no soneto "Cinzas", com que abre o livro:

"O tempo já desdobra sobre mim

asas murchas de tédio e de cansaço."


Dentro desta temática do contraste entre um mundo simples e um mundo tumultuoso de guerras e destruições surge o belo 'Poema do Silêncio', em que ele diz:


'De qualquer parte das distânciasenchendo a fuga de todos os ventos

e a moradia de todos os ecos,

corre o tumulto da miséria civilizada,

a precipitar-se nas últimas crateras dos Megatons.

O mundo prostituiu o silêncio.

O mundo assassinou o silêncio.

E a morte do silêncio endoidece o mundo.'


Em outros poemas, porém, a nota lírica se faz mais presente, de modo especial nas trovas. Mas a predominância do tom crítico ou irônico é evidente, como por exemplo no longo poema,

o mais longo do livro, 'Trono de Baleia', em que o poeta descreve, com muito colorido, muita vivacidade e senso cômico, uma procissão do senhor do Bonfim, para terminar numa visão apocalíptica do 'fogo do Senhor do Bonfim', quando


'cairem do céu e brotarem do chão

as labaredas santas da depuração, pelo fogo,

dos homens e das coisas,

em face da exaltação essencial do Deus Crucificado'.


Livro amargo, por vezes, mas da amargura de quem clama pela vivência do homem na sua liberdade de sentir, de amar, de gozar da natureza, sem o medo da destruição e do ódio, sem as hipocrisias da civilização, com aquele gosto franciscano das coisas simples e essenciais, que são a própria beleza e pureza da vida."


Artigo assinado por Oscar Mendes, publicado no jornal O Diário, de Belo Horizonte, em 5 de julho de 1962

Oscar Mendes (Recife, 25 de julho de 1902 – Brasília, e de novembro de 1983). Advogado, promotor, juiz, escritor, tradutor, ensaísta, crítico literário de renome nacional. Colaborou em diversos jornais e periódicos. Pertenceu à Academia Mineira de Letras.





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