OSWALDO PINHEIRO DOS REIS
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"Curitiba, 30 de setembro de 1957.
Prezado colega
Prof. Santino,
Já faz muito tempo que tenciono escrever-lhe para entabular relações, visto que somos oficiais do mesmo ofício.
Estas linhas são para dizer-lhe que, em separado, estou lhe enviando: uma separata do meu último trabalho; o programa do meu curso aqui na Faculdade de Filosofia da Universidade do Paraná e um dos vários artigos que publiquei na imprensa desta Capital, no qual explicava, evidentemente de modo muito sumário, o meu programa deste ano.
É claro que tenho em vista estabelecer intercâmbio. Por isso, solicitar-lhe-ia me remetesse publicações suas e o programa que leciona aí na cadeira de Filologia Românica.
Nãõ conheço Uberaba nem a Faculdade de Filosofia daí. Não sei ainda quando me será facultada uma visita a ambas.
Aguardando notícias suas, subscrevo-me, atenciosamente,
Oswaldo Pinheiro dos Reis (Irmão Raul Clemente)"
Carta de Oswaldo Pinheiro dos Reis a Santino Gomes de Matos
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"Curitiba, 11 de novembro de 1953.
Prezado colega prof. Santino Gomes de Matos:
Sinto-me cada vez mais tomado daquele machadiano tédio à controvérsia. mas como os assuntos que propõe ´a minha consideração dizem com a nossa especialidade, e, ainda porque já até escrevi alguma coisa sobre o tema (v. a minha Seara Românica, o cap. sobre O ilogismo na Linguagem), não posso deixar de atender ao pedido com que me honrou para que trouxesse a minha opinião desvaliosa ao debate que empolga os arraiais filológicos de sua cidade.
Sinto-me muito satisfeito por ter de concordar com o amigo nos dois pontos em discussão. Isso confirmou a minha ideia de que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras daí conta na sua cadeira de Filologia Portuguesa, com um professor lúcido e afeito às novas orientações filológicas que relegaram para o rol das velharias muitos dos conceitos da gramática tradicional.
Com efeito, a gramática filosófica que estuda as relações entre as palavras e as coisas, ou melhor, as sensações que aquelas despertam em nós, de há muito caiu em completo e irremediável descrédito. Há muitos fenômenos linguisticos totalmente alheios aos princípios da lógica. A gramática filosófica é apriorística infelizmente e dogmática também; não se pode, entretanto, aplicar regras lógicas à linguagem. Isto seria inverter o problema. Gramática deve ser sistematização dos fatos de linguagem. Primeiro os fatos, depois as regras. E como a linguagem não é, como pensavam os antigos, a expressão do pensamento lógico, mas sim de toda a atividade espiritual, segue-se que a gramática não pode ser exclusivamente lógica. Em uma gramática lógica onde ficam os direitos soberanos do uso, já reconhecidos pelo próprio Horácio?
Creio não pode haver dúvida quanto à necessidade do estudo da gramática tradicional, ou normativa, desde que se estigmatizem as suas regras cerçebrinas e as suas picuinhas fantasistas, sem base nos fatos da língua.
Concordo, ainda, com o eminente professor quando pugna por que seja a impropriamente chama da análise lógica reduzida ao mínimo, na aprendizagem da língua. Ninguém negará os méritos da análise sintática como elemento disciplinador do pensamento. Mas não será por isso que iremos transformá-la em recurso exclusivo do ensino da língua. A análise é meio e não o fim. Já se foi o tempo das decifrações dos "Os Lusíadas", suplício das crianças, que saíam da escola levando de Camões estas duas ideias simplistas: era caolho e escrevia difícil. Há realmente, quantidade de construções anacolúticas e de linguagem afetiva que se não podem encaixar nos limites estreitos do leito de Procusto da análise sintática, pelos motivos que já aduzimos quanto às relações da lógica com a linguagem.
Respondo sucinetamente aos seus dois quesitos, meu prezado amigo, porque não o quero enfadar com descabidas e desnecessárias considerações sobre assunto que lhe são familiares.
Dou-lhe meus parabéns pelas boas causas que defende. Faça dos meus rabiscos o que lhe aprouver. E aceite um abraço do seu admirador constante,
Osvaldo Pinheiro dos Reis"
Carta de Oswaldo Pinheiro dos Reis a Santino Gomes de Matos e
Oswaldo Pinheiro dos Reis – Irmão Raul Clemente (Cidade do Frade, 18 de novembro de 1919 – Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1955). Licenciou-se em Letras Clássicas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Paraná e fez um Curso de Extensão em Filologia Românica na USP. Respondeu pela Cátedra de Filologia Românica na Universidade do Paraná desde 1950, tendo várias obras publicadas, inclusive livros didáticos, como sua famosa seleta latina.


