Yone – O exemplo de vida
- 4 de jun. de 2024
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Atualizado: 17 de jul.

Yone era uma fonte inesgotável de ternura, de acolhimento, e dominava uma arte rara: a "arte da escutatória", na linguagem de Rubem Alves, ou seja, sabia escutar, e, depois de ouvir, se lhe pediam opinião, tinha sempre uma palavra inteligente, sábia e inspirada a orientar.
Yone foi um exemplo de filha, de irmã, de esposa, de mãe, de amiga, de cidadã, conforme tantos emocionantes testemunhos. Ao dizer isso, pode parecer algo idealizado ou "sacrificado", triste. Não, pelo contrário, tudo lhe era simples e natural. Era a filha alegre, a irmã confidente, a esposa apaixonada e amorosa, a mãe carinhosa e divertida, a amiga presente, a cidadã engajada.
Como cidadã, Yone atuou nas lides do jornalismo e nas ações sociais. Sempre modesta e discreta, na imprensa, como Diana de Lyz, defendia os valores familiares e cristãos, bem como as causas dos menos favorecidos; nas ações sociais, ainda mais discreta, seguindo talvez aquela orientação de Jesus "que a mãe esquerda não saiba o que direita faz", quanto bem plantou, quantos ajudou.
Como esposa, musa inspiradora de Santino, foi a companheira afetuosa de todas as horas, o seu permanente apoio em todos os projetos e desafios.
Como mãe, que honra, que privilégio, que felicidade ser sua filha! Quando nasci, minha mãe já entrava na maturidade. Mas nossa diferença de idade nunca foi algo perceptível para mim. A jovialidade sempre foi sua característica. Sua energia era de permanente dinamismo, de resiliência otimista, de positividade e bom humor.
Yone tinha uma personalidade que aliava delicadeza e firmeza. Jamais a vi levantar a voz, entretanto suas palavras eram sempre ouvidas e consideradas. Exigia muita disciplina dos filhos, mas com tamanha doçura que não havia espaço para se ficar contrariado: obedecíamos alegremente. Presente em tudo em nossa vida, jamais nos tolheu a liberdade de pensar ou decidir, apenas, abertas as perspectivas diversas, apresentava sua opinião sábia e sensata. Ela nos criou com raízes sólidas, mas deixando nossas asas livres para voar, a fim de realizarmos o plano divino que cada alma tem estabelecido quando vem à terra. Essa postura, especialmente diante de todos as perdas que permearam sua vida, foi realmente notável.
1975: a grande prova
A morte violenta e súbita do primogênito, Cleômenes, aos 30 anos, seguida, 40 dias depois, do falecimento de seu amado Santino, foram uma prova indescritível de dor. Entretanto, com uma coragem inaudita, aos poucos, degrau a degrau, as fibras de seu espírito superior a reergueram.
Passados os primeiros tempos de luto e de profunda tristeza – sem enveredar para qualquer tipo de vitimismo, mantendo sempre sua independência emocional –, firmou-se em dois pilares para esse processo de reerguimento: a fé, desdobrada em oração e em ação pela ajuda ao próximo, e a arte – transformada em terapia.
Com efeito, dedicou-se com ainda mais empenho às ações sociais, intensificando em especial a sua colaboração voluntária ao Instituto dos Cegos do Brasil Central. Colocando-se a serviço e conseguindo ajudar pessoas em situações difíceis, dando amplitude ao seu sentimento maternal, o seu coração foi reforçando-se em resiliência.
Ao mesmo tempo, tomou a arte como terapia. Sempre fora extremamente hábil com as mãos, no crochê, no bordado, na culinária. Entretanto decidiu dali em diante experimentar também a pintura. Os seus primeiros quadros a óleo traduziam, em paisagens, toda a profunda tristeza de suas perdas irreparáveis. A seguir, passou um tempo dedicada a pintar flores, tendo criado lindos quadros a óleo e aquarelas.
Posteriormente, sempre querendo progredir em suas descobertas, encontrou sua arte em excelência: pintura em porcelana. Com o tempo, suas peças começaram a ficar famosas, por isso, atendendo a pedido de amigas, abriu um ateliê, em sua casa, para ministrar aulas de pintura em porcelana. A antiga sala de aula do Prof. Santino transformou-se então no ateliê de Yone. E assim seguia a vida...
Mudança para Belo Horizonte
Como eu sentia falta de minha querida mãezinha! Todas as férias, todos os feriados, lá estava eu em Uberaba, na Bernardo Guimarães, e sempre insistindo para que ela pensasse em se transferir para Belo Horizonte. Entretanto, minha querida tia Adelina, irmã mais velha de minha mãe, que sempre morara conosco, resistia à ideia.
Assim, somente anos mais tarde, passados muitos meses do passamento de tia Adelina, minha mãe decidiu experimentar Belo Horizonte. Aproveitou as férias das aulas do ateliê de pintura, fechou a casa e veio passar alguns meses, numa experiência de como se sentiria aqui na capital mineira.
Ter a presença de minha mãe novamente perto de mim – não tenho palavras para descrever esta dádiva. Todos devemos gratidão às nossas mães, pois nos trazem à vida. Mas a minha gratidão transborda-se centenas de vezes multiplicada à de qualquer filha. É que, além de me possibilitar, junto de meu pai, a melhor das infâncias e das adolescências, minha mãe praticamente me trouxe à vida pela segunda vez, quando veio morar em Belo Horizonte. Confesso que não sei como teria sido para mim, sem ela aqui naquele momento.
Todavia, é importante ressaltar que, embora a sua transferência para Belo Horizonte tenha consubstanciado para mim apoio moral e espiritual insubstituíveis, Yone criou, aqui nas Alterosas, para si própria, uma nova vida. E pasmem: ela tinha 80 anos quando chegou!
Yone adaptou-se de imediato à vida agitada de Belo Horizonte. Integrou-se à Universidade da Terceira Idade da Fumec, que frequentou por 10 anos. Fez muitas amizades, que perduraram até o fim de sua vida. Com as colegas, criaram um jornal na Fumec, voltando ela então a escrever rotineiramente. Estava sempre atualizada com o momento presente, inclusive sobre os acontecimentos político-sociais. Em BH tornou-se também praticante diária de Tai-Chi-Chuan.
Vaidosa, sem extremos, tinha em si inevitáveis marcas do tempo, mas a pele suscitava elogios permanentes de tão alva e fresca. Mantinha os sedosos cabelos sempre penteados, as unhas bem cuidadas, com esmalte e batom em tons de rosa clarinho, fazia questão de seu perfume inconfundível, escolhia suas roupas com adequação e elegância.
Sem praticamente não ter tido qualquer problema de saúde, não tinha necessidade de remédios. Sua saúde, creio, advinha de uma alimentação muito saudável (diversificada, sem qualquer restrição, mas com alimentos orgânicos – comida de verdade – e sempre em horários certos e em quantidades adequadas), da prática de exercícios físicos e da paz de espírito. Um ritual interessante é que, após o almoço, tomava sempre uma minúscula xícara de café e um pequeno cálice de vinho do porto.
Em resumo, Yone conseguiu a proeza de envelhecer "jovem", magnificamente. Talvez um dos seus segredos fosse o fato de pulsar nela um coração amoroso e compassivo, uma mente alerta e atenta, uma permanente vontade de aprender e de colaborar, um fé inabalável, desdobrada em orações e ações. Yone foi "jovem" até os 92 anos de idade, quando súbita e suavemente partiu, deixando para mim um vazio insuperável e eterna saudade.
Sua passagem, terrível golpe para mim, ocorreu da forma como creio todos gostariam de partir.
Naquela manhã, enquanto eu estava no trabalho, ela cumpria sua alegre e produtiva sua rotina. Depois de sua meditação matinal, tomou o desjejum e desceu para uma sessão, ao sol a manhã, de tai-chi-chuan, com a instrutora Lara. Retornou, tomou sua ducha, vestiu-se com o esmero de sempre, perfumou-se e alegremente dirigiu-se à sala de refeições para o almoço.
Estava em sua companhia Verônica, uma doce e eficiente auxiliar que todos os dias vinha almoçar com ela e durante a tarde era como uma secretária, para leituras e escritas. Segundo me relataram, assim que se sentaram à mesa, com seu bom humor habitual, Yone dirigiu-se à cozinheira: “Que delícias teremos hoje para almoçar?” A jovem, sorridente – porque era impossível resistir àquele clima alegre e sereno que a presença de Yone irradiava – ia responder, quando Yone, de repente, lhes disse: “Meninas, há algo errado, não estou me sentindo bem... E desmaiou. Ela foi atendida de imediato, poucos minutos depois, pois as moças chamaram um vizinho, cardiologista, que estava em casa. Cheguei desesperadamente, com uma ambulância, para levá-la ao hospital, mas nada havia a fazer. Então foi assim... Apenas uma leve sensação de fraqueza e partiu, como o passarinho mágico da história. Imagino a festa no céu, anjos recebendo um ser tão especial, que cumpriu seu plano de alma com louvor.
O exemplo edificante de Yone Passaglia Gomes de Matos continua a resplandecer e a apontar nortes para todos os que com ela tiveram o privilégio de conviver. Por isso, decidi trazer um pouco de sua trajetória, resumida neste espaço, esperando que possa inspirar vida plena, coragem e alegria a quem ler estas páginas.
Eis o último texto redigido por Yone, publicado pouco antes de sua partida.
CANÇÃO DO AMOR UNIVERSAL
Yone Passaglia Gomes de Matos
Haverá o dia em que poderei buscar minha inspiração fora de mim.
Não mais me perderei no vasto oceano do meu Eu.
E só terei olhos para as coisas belas da vida,
pois não mais verei os andrajosos, os famintos.
Não mais verei as crianças maltrapilhas
e as velhinhas de faces maceradas
a bater de porta em porta.
Ignorarei os perversos, os infiéis, os perjuros.
Um mundo novo se abrirá diante de mim:
Só luzes, só flores e perfumes.
Ali as criancinha serão fortes e coradas.
As velhinhas terão o seu lugar ao sol,
aconchegadas, protegidas, amparadas.
Haverá uma névoa azul e perfumada de felicidade,
pois os maus, os egoístas serão transmutados na "graça",
e a guerra, o ódio, a dor estarão desterrados para sempre.
Nesse dia, minha alma se banhará transfigurada
na luz do amor universal.

