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CANÇÃO CARNAVALESCA – Santino Gomes de Matos
As vozes das meninas afinam com o ar limpo da manhã. Cantam canções carnavalescas. Mas o "lig-lig-lé" é apenas um pretexto para os sons, para o trinado claro e puro das gargantinhas entoadas e frescas. As crianças cantam como cantam as patativas. Por uma vocação de alegria. Porque sentem a alma leve harmonizar-se com as coisas. Porque querem um motivo rítmico de si mesmas, no ambiente que florescem com a sua presença. As canções carnavalescas passam pelos lábios das crianças,
PRAIEIRO – Santino Gomes de Matos
Se eu fosse praieiro, teria um leito branco e macio, de areia mais alva que a lua, mais alva que um colo redondo de sereia, se eu fosse praieiro. E os coqueiros teceriam, com as palmas, labirintos de sombra para enfeitar o meu chão. E o vento viria suspirar baixinho, em meu ouvido, num hausto trazido do mar, como um hausto quente da mulher amada.... Se eu fosse praieiro! Do livro Oração dos Humildes ©2022 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde que citad
DOMINGO À TARDE – Santino Gomes de Matos
Domingo à tarde, todos os misticismos descem para junto da gente. Principalmente se a neblina envolve o arvoredo e, pela rua, passa um carro músico de propagandas, tocando valsas velhas e tristes. Sente-se vontade de ir não sei para onde, uma vontade que se pode crismar de saudade do céu. Foi o que aconteceu comigo, nesta tarde de domingo. As árvores enlutaram-se de asas de urubu, estendidas a uma promessa de sol. Os velocípedes das crianças não se atreveram a correr nos pass
MENINOS DE HOJE – Santino Gomes de Matos
O fundo de minha alma é como um fundo de oceano, cheio de mistérios e encantamentos. Tem dragões, tem sereias, tem iaras mortas carregadas nas águas dos rios, para os sargaços do mar. Tem o segredo do rei dos peixes, que guarda num palácio de coral uma princesa de olhos verdes de algas, a princesinha de mil sonhos adolescentes. Branca de Neve viveu muito tempo em meu afago; e a madrasta cruel, no primeiro ímpeto quixotesco da minha índole. O "Barba Azul" das estampas colorida
FAZ DE CONTA – Santino Gomes de Matos
Faz de conta que vale. E as cintas vazias dos maços de cigarro ficavam valendo cem mil réis! Faz de conta que não vale... E eu vou pela vida, aos trancos, aos esbarrões. Fecho os olhos para não ver. Quero enganar-me. Faz de conta que não dói, que é de brinquedo, que não vale. Faz de conta que sou feliz. Mas o "faz de conta" agora não produz milagres. As dores continuam a doer e eu vejo como é inútil, agora, um tesouro de cédulas de cigarro.
EXAME DE CONSCIÊNCIA – Santino Gomes de Matos
Ainda me lembra a sacristia com rosas espiando da janela e, nas paredes, quadros de aquarela, cujo latim não entendia. Ao Sr. Cura, ia dizer pecados, (que pecados, meu Deus!) com toda contrição. E ao ver os braços de Jesus, chagados, o remorso dos grandes criminosos vivo nos meus olhos lacrimosos, enchia de punhais meu coração. As leves mentiritas, os enredos que fazia à mamã. E o Sr. Padre, ouvindo-me os segredos: – Cuide, meu filho, em ter uma alminha sã. – Olhe que o mundo
AQUELA CANTIGA – Santino Gomes de Matos
No seio de outras cantigas, aquela cantiga ficou cantando, num ritmo lento, mole, bamboleante, como um embalo de balanço d'água. Ouço vozes. Ouço ruídos. Epilepsias de Jazz. Cento e cinquenta instrumentos de uma ópera inteira. E o soprano e o tenor e mais o coro em berros. Tudo isso me encharcando a alma, através dos ouvidos. E ainda as desafinações da vida. Barulhos, ruídos, rugidos de mágoa. Dor e desespero. Misérias, misérias. É o canto do mundo que cresce, que sobe aflit
ÁGUA DA REVELAÇÃO – Santino Gomes de Matos
A menina que olhou no copo d'água à meia-noite do dia de São João, viu uma torre de igreja, viu um véu de noiva e sonhou um esposo esbelto e forte. Escondeu-se, sozinha, atrás da porta e escutou emocionada – Geraldo – o primeiro nome de homem que, depois das doze, pronunciaram perto dela. A menina ficou tão contente, tão leve de alma e derretida em risos, que eu me convenci de que ela vira a felicidade no copo d'água. Também quis tentar vê-la, com uma credulidade tardia e art
O MEU CANECO DE FOLHA – Santino Gomes de Matos
Enchi o meu caneco na corrente de todas as inovações, de ideologias complicadas, estranhas, forasteiras. Todas tinham um gosto amargo e mau e deixavam um limo de impurezas, no fundo virgem do meu caneco de folha. Descobri, então, em mim, a verdadeira alma brasileira, recortada na grandeza da minha terra, acostumada a horizontes amplos de azul e de oxigênio, que não pôde escravizar-se à geometria de cubos, de fôrmas supliciantes, como um sapato de ferro chinês. Por isso, volte
O PAÍS QUE SAIU FORA DO MAPA – Santino Gomes de Matos
Mestre João Antônio, que é feito do Brasil? Do Brasil que o Sr. nos ensinava, entre barricas de bacalhau, no fundo da sua bodega, à esquina da Rua do Meio? – Qual o rio maior do mundo? – E a cidade mais bela? – E a baía mais vasta? – E a laranja mais doce? – E o café melhor? – E o céu mais belo? – E o país mais rico e melhor do mundo? Mestre João Antônio, como o Sr. ficava orgulhoso em ser professor numa terra como o Brasil, que era a primeira em tudo, entre as primeiras! Se
A FILHA DE DONA VIVINA – Santino Gomes de Matos
– Bolotinha de cabra! – Senhor, meu amo! A filha de dona Vivina vinha brincar conosco, os cabelos em cartuchos, encaracolados e negros, como cachos de trevas. Das cadeiras, na calçada, vigiavam-nos. Mas a alegria era tanta e os olhares tão cheios de simpatia, que não lhe sentíamos o peso sobre nós. – Bolotinha de cabra! – Senhor, meu amo! A filha de dona Vivina cavava cacimbinhas na face, quando ria. A casa do juiz golfava luz por todas as janelas. Era um insulto de línguas d
A CALÇADA DO MEU AVÔ – Santino Gomes de Matos
Nas noites de bacorejo dos sapos na lagoa, a calçada do meu avô tinha histórias e coalhada. "Seu" João, "seu" Policarpo e o moleque Catingueira escanchado no peitoril do alpendre de tijolo. E o sapo batendo ferro: tan, tan, tan. E as gias e as rãs, num coro de algazarra, em surriada às estrelas, numa vaia de garotos sapecas. Meu avô conhecia todos os caminhos do céu. A hora em que os "Gêmeos" apareciam, em que o "Cruzeiro" tombava inclinado e a "Arca de Noé" navegava para o s
BEIRA DE RIO – Santino Gomes de Matos
Búzios e intãs enfeitam a areia morena. E pintas encarnadas de caroços de mulungu vermelham às centenas, aos milhares, como se a areia do rio estivesse com sarampo. As moitas de jeramataias espalham-se densas, agachadinhas no chão, para sombras alcoviteiras, no choco de amores selvagens. Os bambuais castanholam alto, devagarinho. Ou numa estralada brava matraqueiam, quando o vento enxerido vem, correndo, anunciar a chuva. – Galinha cheia! – Cheia! – Assada ou cozida? – Cozida
RUA GRANDE – Santino Gomes de Matos
A Rua Grande desistiu de crescer mais. Parou, num gesto de desânimo, no meio da ladeira da Igreja do Monte. Também do outro lado, não teve ânimo de estirar-se até aos mata-pastos da várzea, na linha reta do casario. Fez-se contemplativa, mística, filantrópica, e agasalhou, nos sobradões mal-assombrados, todos os morcegos e todas as andorinhas vagabundas. Tem, agora, uma vida em câmara lenta, com uma dezena de procissões por ano, no passo calculado dos acompanhamentos. Perdeu
ARACATI – Santino Gomes de Matos
O Aracati acabou de trazer as jangadas à praia. Vem ainda úmido da maresia e orgulhoso de ter montado nas costas dos tubarões. Acaricia, ligeiro, a cabeça dos filhos dos pescadores e lança-lhes areia nos olhos, numa intimidade atrevida. Está com pressa. Não pode mais dançar, em redemoinho, a sua ronda predileta. Toma fôlego e se alteia, com a asa gigante roçando o céu. Levanta uma nuvem densa de argueiros que se agitam e pululam, como micróbios, no corpo pálido e melancólico
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