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TERNURA – Santino Gomes de Matos
Queria ser para ela o mágico tear dos sonhos ledos, em que a alma trabalha a sua tela sob a unção de místicos segredos. Queria ser essa impressão de luz, que lhe abre a flor de um riso tão gentil e põe um novo céu no azul anil dos seus olhos azuis. Queria ser a gota d'água dessa sede de amor, que a enche, às vezes, de uma estranha mágoa, do ingênio sofrimento de uma flor. Queria ser, no seu destino, todo efeito bom, toda causa boa, toda sensatez, todo desatino, toda impressão
EU SEI DE UNS OLHOS – Santino Gomes de Matos
Eu sei de uns olhos magos, sedutores, que nunca serão meus. Olhos profundos, vagos, cismadores, que vestem longos véus. São da cor das marés. Indecifráveis, ninguém pode entendê-los. Tais olhos, quanta vez, imperscrutáveis, tenho visto sem vê-los! Dizem amor? Talvez. Sei que me falam direto ao coração. Mas, se os busco, já fogem, já se calam, já céleres se vão. E a esteira de luz que, da passagem, a cintilar lhes fica, em minh'alma compõe uma miragem de seduções bem rica.
RESSURREIÇÃO – Santino Gomes de Matos
Não sei como nasceu essa loucura. Eu sei que havia em seu olhar turquesa um céu mais belo, um céu de iluminura, como em gala maior da natureza. Tive, a princípio, a sensação de altura, que há sempre em todo sonho de Beleza. Sobreveio, inquieta, essa tortura, esse bem, esse mal, essa estranheza. Talvez ainda seja amor. Não é tarde! O outono espalha folhas no meu chão, trago no peito um coração covarde. O que eu dera, porém, se conseguisse que num motivo novo de ilusão, dentro
MOTE & GLOSA – Santino Gomes de Matos
Mote Teus olhos de eterno luto vão pela vida, mentindo. (Vicente de Carvalho) Glosa Não julgo paguem tributo às expressões de uma dor, em véus de tanto amargor, teus olhos de eterno luto. Guardando um sonho impoluto, que na alma trazes dormindo, e, por medo, de tão lindo, que alguém o queira roubar, andam assim a enganar, vão pela vida mentindo. Do livro Procissão de Encontros ©2023 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde q
TRISTEZA – Santino Gomes de Matos
Lá fora, as marteladas da goteira. Dias de tédio. Macerada freira, a lua, à noite, pelo céu brumoso, é um poema tristemente doloroso, que dentro da alma oculto, não se escreve, nem chorado se chora, como o deve. Em tudo o mesmo acento de tristeza, ao extático recolho de quem reza. Asas sem rumo, deslizando tardas, vestidas de neblina, em névoas pardas. E as árvores, coitadas, assim quietas, nesse anojo feral das asas pretas: urubus poetas, cismarentos, vagos, feiticeiros talv
DESTINO – Santino Gomes de Matos
Tenho por certo, creio num destino que guia pela vida os nossos passos. Que é luz no crente e fé no paladino e ao triste marca fúnebres compassos. Agora, como um astro matutino, caminhos vai rasgando, nos espaços. Tristes dobres, agora, tem de um sino, almas que morrem, sonhos em pedaços. Fonte do pranto, o é também do riso, e, às vezes, as torturas de um inferno transforma num dulçor de paraíso. Só não muda o destino de quem ama: um sol que se amortalha em céu de inverno com
CAPRICHO – Santino Gomes de Matos
Foi um capricho, apenas. Tudo acabou num riso cintilante... Teve o brilho de um voo de falenas, durou um só instante. Sinto sempre saudade. A sua imagem é, no meu passado, um sol que se visse, em plena claridade, tristemente apagado. E trago na retina redouradas ainda de esplendor, as visões de seu sonho de menina, visões do seu amor. Que importa se esqueceu o bem que trouxe ou todo o mal que fez? Foi uma estrela que riscou o céu, sumindo-se, de vez. Um dia ousei pensar que f
NA FAZENDA – Santino Gomes de Matos
A vida aqui é a de um cenário bíblico: a tenda, o gado manso e um céu feriado, sem ruídos de aço ou chaminés de fumo – um céu lírico, de asas em folga, sem a dor de um rumo, e eu a vê-las assim extasiado, em bandeiras de festa, alacremente, num sentido feliz de hora vazia, de hora em que a vida passa e não se sente. Do livro Procissão de Encontros ©2023 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde que citada a autoria.
INGENUIDADE – Santino Gomes de Matos
Vou ungir-me daquela ingenuidade que foi o meu celeiro de esperanças. E fecharei os olhos para não ver o ódio e a dor, agudos como lanças. E a vileza e o desgosto e o padecer e tudo mais do mundo e tudo mais da vida! Quero encontrar meu reino de quimeras (Está perdido há tanto tempo, tanto!) E me virá a luz de altas esferas. E hei de sonhar ao som de um acalanto, tranquilamente, ingenuamente. Já coloquei no nicho de meu peito tua imagem de santa. Teu riso, teu olhar, esse teu
FOGO FÁTUO – Santino Gomes de Matos
Veio a lembrança, de manso, trazia histórias de mim. Mas luto e já não alcanço achar-lhes começo e fim. No fundo do coração há tanta cousa perdida, tanta sombra de ilusão, compondo o fundo da Vida! Quer-se bem morto o passado que dorme dentro da gente... E somos nós o enterrado e somos nós o vivente. Um belo dia se acende em luar, a soledade. E o destino, há quem remende com remendos de saudade. O consolo que me veio, sem saber como e por que, com um bem em que não creio, por
OLHOS DE REVELAÇÃO – Santino Gomes de Matos
Faz tanto tempo já! Há distâncias aflitas de permeio. Há uma vida de íngremes caminhos, há um destino aberto como um veio de águas salobras, de salobros vinhos, que enchem diariamente a minha taça para o instante que vem, para o instante que passa! Faz tanto tempo já! Eu era então o tímido menino que numa noite clara de São João procurava saber o meu destino na água encantada da revelação. A lua na corrente se banhava. Sobre a água de mistério, debruçado, nem sei dos sonhos q
ALMA DA DISTÂNCIA – Santino Gomes de Matos
Hoje tudo me fala da Distância, cuja alma deve ser azul e leve, diluída num céu aberto em ânsia de esperanças, talvez, talvez de um sonho breve. Não sei por que, mas tudo quanto vejo nesta manhã tranquila, de cristal, parece a orquestração de um só desejo ou de um passado triste, o triste funeral. A agulha dessa torre, esses outeiros e um vento preguiçoso que aí anda, dizendo de queixumes forasteiros, que a saudade nos traz ou que um anseio manda... Não sei. Há alguma cousa
NOITE LONGA – Santino Gomes de Matos
Meia-noite! Se eu pudesse fazer parar no espaço o círculo vicioso dessas horas! De minuto a minuto, mais um passo para o ventre da cova. E a angústia das demoras e essa morosidade com que caminha a Boa Nova de uma felicidade! Fumo, leio, escrevo. Da torre cai mais uma badalada. O relógio está rouco do frio da manhã. Que noite longa! E esse desejo ansioso, louco, de ver o sol surgir numa risada, as nuvens carminando a gomos de romã. Fumo, leio, escrevo. Até que, às três da mad
NIRVANA – Santino Gomes de Matos
Eu vinha só, ao longo do caminho. Um caminho tão triste e tão deserto que havia em cada espinho o convite de amor e de agasalho de um coração aberto. Caía a sombra do alto, e era um manto inconsútil de mágoa. Pairava em tudo um lânguido quebranto, que me falava ao negro ceticismo, com a voz feitiça da cantiga d'água que mais se adoça à entrada de um abismo. E, aprofundando o enigma de meu ser, achei-me solidário às cousas rudes, que põem na inconsciência do “não-ser” o princí
BUDISMO – Santino Gomes de Matos
Como a árvore, que aos poucos se despiu das folhas que a vestiam de esperança e a última estação em que floriu já nem mesmo conserva na lembrança; que é uma sombra magoada, no caminho, e uma angústia de galhos para o espaço; que já não bebe ao sol o quente vinho nem as asas detém de um voo lasso; assim parei nessa extensão deserta da vida que se ermou num desengano e, em viços ou cantigas, não desperta, indiferente ao seu fadário humano. E, como folhas no arrastão do vento, v
REDONDILHAS – Santino Gomes de Matos
O tempo fez-se de bruma, da mesma cor da ternura, com que no peito se estruma a flor de toda ventura. Tua lembrança tão clara, que lembra a taça dos lírios, entra a minh'alma e lhe sara ânsias, tédios e martírios. Dias tais, sem arrebol, há quem lamente, por vê-los. Eu não – pois tenho o meu sol no louro dos teus cabelos. Enganos verdes, no mar, disfarçam rochas e escolhos... Mas sempre me hei de fiar no verde-claro de seus olhos. De Santino para Yone Do livro Procissão de E
INSTANTE SUPREMO – Santino Gomes de Matos
Tu não disseste nada e eu nada disse, naquele encontro a sós, fortuitamente, em que o acaso nos fez a alcovitice de deixar-nos sentados frente a frente. Pois ficamos os dois nessa estroinice das frases soltas, desconexamente, com medo de que à boca nos subisse a confissão mais louca e mais fremente. Até que aquele instante de mudez, profundo, denso de emoções contidas, como um hiato, entre nós dois se fez. E o gesto neutro de um olhar a esmo acolheu-nos as ânsias comovidas do
BONEQUINHA LOURA – Santino Gomes de Matos
Ó bonequinha loura a tua boca é breve, como um suspiro em flor. Ó bonequinha loura, quem te fez de neve, se à neve fria não aquece o amor? Ó bonequinha loura, quem te fez de lua, lua de inverno, assim gelada e alva, da alvura-sonho que é só dela e tua, ó bonequinha loura, ó minha estrela d'alva! E o olhar lavado de um azul tão doce... Bem o queria para o meu olhar. Meu olhar triste que consigo trouxe a cor de assombro de revolto mar. Ó bonequinha loura, brinca no meu sonho, q
O QUE EU AMO EM VOCÊ – Santino Gomes de Matos
O que eu amo em você é a luz da própria vida, é tudo que não tive, é tudo que não tenho, para encher a grandeza comovida de um destino pesado como um lenho. O que eu amo em você é a esperança louca de um futuro feliz, que me anda a fugir da alma para a boca e que a boca não diz. O que eu amo em você é o mundo de alvoradas que o seu olhar ao meu olhar desdobra. E os pequeninos nadas, que me tornam feliz, do que lhe sobra. O que eu amo em você é essa ventura, que eu quereria in
DEDICATÓRIA – À YONE – SANTINO GOMES DE MATOS
Não falta a qualquer treva um raio que redime. És no meu horizonte a Estrela do Pastor, que guia para o céu e a vida desoprime do peso de um castigo, em círculos de dor. Estes versos são teus. E tudo mais que exprime força de afirmação ou sopro de valor nesta alma amarga e frágil como um vime, que vives a compor, compor e recompor. Em nosso encontro tive a impressão de espanto de uma ressurreição. Como que por encanto, senti asas de novo em minh'alma cativa. E eu, deserto,
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