top of page
Posts
NA MANHÃ CLARA – Santino Gomes de Matos
O apito cresceu alto, como uma seta fina projetada, que varasse o forro de veludo da manhã. Espatifou-se. Os ecos transformaram-no em cacarias de som. Apesar disso, ficou gritando, dentro de mim, o seu grito ilimitado de distâncias. Quando foi? Quando será? A indecisão me tolhe e me equilibra, entre o passado e o futuro. Sei que vim, sei que sigo, que caminho, às vezes sem vontade, como um boneco desengonçado e feio, que obedece mal aos cordéis, num palco fantástico de autôm
EXÉQUIAS – Santino Gomes de Matos
(A Quintiliano Jardim, o exímio poeta das "Cem Quadras") Cantigas d'água, num domingo quieto, mole de tédio e de penumbras vagas, como me falam de um pesar secreto, de uma saudade de distantes plagas! Faz muito tempo que o tremendo veto do Destino se deu, para que tu tragas, ó chuva triste, num chorar discreto, mais pranto ainda a ressequidas chagas. Teus dedos finos, no bater das telhas, acordam o tropel das horas velhas, que adormeceram no meu coração. E outra vez, neste cé
ORAÇÃO – Santino Gomes de Matos
O musgo que amacia e a fonte que refresca, como faltam à rocha nua erguida, faltam à minha vida! Senhor! Dai-me a dureza dos rochedos nus. A inconsciência estúpida e brutal do que não sente o bem, do que não sente o mal, e, intacta, devolve a própria luz. Onde a voz de acalanto do meu berço? Onde o ninho de paz dulcificado para vocação de amor que não exerço, num sonho que hei de ver sempre adiado? Senhor! dai-me a alta surdez dos monolitos. Que eu não me escute nunca e não
NOITE GORDA – Santino Gomes de Matos
Noite gorda de sombra e de pecado. Não há céu, há escuro. Não há homens, há animais. Nunca senti tanto o peso da treva. Tenho a sensação de uma arroba sobre o peito, de desalento, de asfixia, de pesadelo. Ora, vamos para a claridade das avenidas. Vamos para as rodas alegres, onde se discute futebol e Greta Garbo e a guerra do futuro. Veja como os homens são felizes na desgraça. Acostumaram-se. Se há terremoto, melhor para os passos da dança. Até mesmo a terra ajuda, valsando
PURO ESPÍRITO – Santino Gomes de Matos
O meu momento virá, e a tarde se enfeitará de frutos de ouro e de marfim, como uma árvore mágica de Aladino. Terei apenas que estender a mão, para colheitas mirabolantes. E a Beleza me ficará ao alcance dos dedos, afinando o pentacórdio dos meus sentidos. Participarei do milagre da levitação dos eleitos. Serei livre e despreocupado como os ventos das planícies. Como um barco solto de todas as amarras, que voga à discrição, em oceano sem fim. Desaparecerão os limites e as fron
TORPOR – Santino Gomes de Matos
Hora morna de morno desalento. A crueza da luz que se derrama é uma moleza, um espreguiçamento, que vem das cousas para o nosso tédio, para um desejo agudo, sem remédio, que adormece tranquilo e já não clama, e é quase paz e é quase esquecimento. Hora perdida de silêncios vagos, multiplicados no silêncio ambiente. A apatia budística dos lagos o nosso ser invade, neutralizando toda a intensidade da alma que vive, e sofre, e espera, e sente. Hora quente de sol e de mormaço, que
PAISAGEM – Santino Gomes de Matos
Donde vem essa névoa em que me perco, em que afundo uns olhos penetrantes, no esforço de ver e não vejo? A paisagem das estepes anemiza o sol do equador. Tudo de gelo, tudo em coberta de neve. E um frio agudo, varando o corpo, varando a alma. Um vento de navalha assobia como um "knout". Adivinho homens de chicote em punho, ferozes, carrancudos, com braços automáticos de êmbolos. Adivinho homens genuflexos sobre suas próprias chagas dos joelhos sangrando. A tatuagem sombria do
VALE DE JOSAFÁ – Santino Gomes de Matos
Os horizontes deixaram de ter uma significação no meu Destino. Já não aguardo as manhãs e as tardes com um pressentimento de chegada. Emudeceu o "vem-vem" que cantava na minha alma, anunciando a vinda de uma felicidade grande, para a realização do meu sonho. E as horas caem dentro da minha vida como as folhas secas de uma árvore de verão na debandada boêmia das cousas soltas, que circulam livremente, sem pagar dízimos de importância. Os meus olhos aprofundam atitudes interior
ESQUECIMENTO – Santino Gomes de Matos
Tenho ânsias de fugir, de perder-me em solidões de névoas e de trevas, porque a redenção do homem, mais do que nunca, está no esquecimento. O olho da memória vigia aberto, dentro de mim. Vejo tudo. As chagas todas da minha alma, e todos os becos escuros que atravessei no meu caminho. Debalde procuro reduzir os invencíveis "ontens" ao mínimo comum de uma dor, de uma tristeza, de uma saudade. Eles caminham comigo, com as torres negras dos acontecimentos erguidas para o céu, e
MOSAICO – Santino Gomes de Matos
A força dos combates que sustento, para vencer-me, para fixar-me no equilíbrio de uma personalidade, sempre me vem dos ódios pequeninos. Dos venenos em dosagem diminuta, que não matam. Pelo contrário, instilam em nosso peito, uma piedade enorme de todo o gênero humano. É com essa compaixão pela fraqueza alheia, com o desprezo pelo gesto que amaldiçoa, pela mão que apunhala na sombra, que eu formo o mosaico estranho do meu ser. É feito das lições mirins de cada dia, no trato d
PONTO MORTO – Santino Gomes de Matos
Não estou olhando para nada. Sinto que a tarde se acarneirou de nuvens e todas as coisas repousaram dentro dela. Tudo quieto. Paisagens de gesso, imóveis. E eu também parei quieto, tranquilo, sem ver. Os olhos abertos não refletem nada. Sou um Buda de carne e osso, de braços cruzados, de pernas cruzadas, fundido na atitude das estatuetas de bronze. Todo o meu ser atinge um ponto morto de indiferença, de tranquilidade, de quietação. Um ataque de catalepsia de espírito. Sei qu
PARA ALÉM DA MONTANHA – Santino Gomes de Matos
O instinto da luz me encoraja e me anima. Não sei se vou de rastos, se vou ferido, se vou dilacerado. Eu sei que por detrás da massa negra das sombras há sol, há calenturas, há descanso. Venham comigo os que desesperam. Os que mais sentem o travor da maldade dos homens, os que se constringem, num círculo de ferro, nesta era brutal de ferro e de cimento armado. O toque humano está na cadeia das mãos, na ajuda de Cirineu aos que tropeçam, no amparo aos que tombam no meio do cam
MISANTROPO – Santino Gomes de Matos
Ninguém há que conheça a minha história. Trago-a oculta aos risos escarninhos e nisso ponho toda a minha glória: beba-me o pranto a areia dos caminhos. Se às vezes, na penosa trajetória, o número decresce aos meus espinhos, pássaros vejo, assim como em vitória, conduzindo-os nos ares, para os ninhos. E a ave e a flor e os veios cristalinos, e o coqueiro a gemer e a brisa mansa que anda sonora de um tanger de sinos, eis o que falo e o que me dá consolo. Os homens... ah, na pon
FIM – Santino Gomes de Matos
Será então de tarde. O crepúsculo aveludará o meu quarto, entrando leve, esgueirando-se pelas frinchas da porta. Não verei o meu último pôr de sol. Não saberei que o meu último dia se faz treva no horizonte e treva nos meus olhos. O Universo irá ficando cada vez mais distante. Cada vez me resumirei mais em mim. As minhas mãos hão de fazer o último gesto quase subjetivamente, porque serei, então, a única realidade possível. Os sentidos já terão perdido as antenas para a vida.
bottom of page
