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Poemas
Poemas Inéditos
RECADO DE POESIA – Santino Gomes de Matos
Um recado de poesia entre o sonho e a realidade, atende a quem pressentia meios tons de amenidade. Não é a volta impossível ao enjoo de água doce do romantismo risível nas falsidades que trouxe. Obsessão da fantasia. O irreal em prosa e verso. O próprio leitor queria ser de si mesmo diverso. Palpava-se herói ou anjo, e, em escadas de jacó, subia qualquer marmanjo ufanado do ouro em pó. Mas agora é o contraste, o outro polo do exagero, cada qual com seu desgaste de tragédia se
UBERABA CENTENÁRIA – Santino Gomes de Matos
POEMA VERDE (À gameleira da praça Afonso Pena, que viu Uberaba nascer, em homenagem ao centenário de Uberaba – 2 de maio de 1956.) Vetusto tronco e clara mocidade, na fronde esmeraldina enchendo o céu! És um poema verde à eternidade do burgo que a teus pés alvoreceu. Viste-o nascer. E, agora, a imensidade da glória vegetal que Deus te deu contempla o centenário da cidade que a pompas de metrópole ascendeu. Não fôssemos fechadas criaturas, que fugas transcendentes não logramo
SONETO DA AUSÊNCIA – Santino Gomes de Matos
Eu – "nesta Costa d'África do Mundo", como dizia o magoado Nobre, sinto baixar a noite, em que me afundo, quando a distância o teu olhar me encobre. A cena do contraste fere fundo. Ai tão rico e por aqui tão pobre do sol qe se irradia almo e jucundo de ti, do teu amor – ouro sem cobre. A suadade, porém, anjo da guarda que vela pela sorte dos ausentes, ao meu lado, solícita, não tarda. E a sombra luminos domeu lar – tu e Cléo e Evandrinho aqui presentes – em via-láctea, se abr
SONETO SEM VERBOS DIANTE DA ESTÁTUA DE MÁRIO DE ANDRADE – Santino Gomes de Matos
Mário de Andrade, em pedra, em cativeiro. E a glória dele, numa versão do gênio do Brasil lesto, vagueiro – eis o tudo da sua louvação. Língua viva, de estilo feiticeiro, modismos da cidade e do sertão, para o acalanto do sono ao seringueiro para a babel de São Paulo em expressão. No verde-amarelismo, um principado. Macunaíma, o herói em veia pura, magias do folclore interpretado. Mário de Andrade, em opaco monumento, assim em pedra, que ofensa dura à luz e à cor, ao canto e
SONETO DO MORTO-ETERNO – Santino Gomes de Matos
Outros domínios, outra dimensão o morto-eterno em projeção assume sem os percalços da limitação, em si o ser total une e resume. Transcendência do gesto, em vez da mão que semeava da baixada ao cume. E estanque embora, a rica doação em sarça-ardente para o sempre lume. Império da virtude sobre a morte. Os despojos na terra e o exemplo em nós, com a fidelidade de um transporte. O morto-eterno, assim, ato e presença, é penhor de horizonte, e é cor e é voz do ideal promovido em
SEM JEITO – Santino Gomes de Matos
Sem jeito é mesmo o meu jeito de com a vida me compor. Meu estribilho acaba desfeito na gama seja qual for. Não me merecia estes olhos de gula da vida inteira. Mas me recuso aos antolhos que só dão visão festeira ante o espetáculo bizarro da humanidade irredenta: o homem tão preso ao barro que a alma de si afugenta. Sem jeito é mesmo o meu jeito de aceitá-lo d'água e sal, sem me sentir contrafeito com o meu clichê astral. As chaves do meu mistério recebi-as muito cedo. Virou
SEIS DE JULHO – Santino Gomes de Matos
6 de julho de 1975 A "velha guarda" aqui se põe presente. De ânimo vivo, unida, comparece, ostentando a comenda referente a quem já foi obreiro desta messe. O "Lavoura e Comércio" me fez crente de tudo o que na vida se engrandece pelo ideal, em chama permanente, que vem do povo e com o povo cresce. Por isso o 6 de julho se incorpora num grato calendário inevitável, que automaticamente se memora. É uma parte de nós, continuidade dos que são, dos que foram, inefável reencontro
PARALISIA DA ALMA – Santino Gomes de Matos
Evitemos a síncope funesta da derradeira crença amortalhada. Quando a alma, resistente, não se cresta, temos a dor em luz transfigurada. Precipita-se o raio na floresta. E a árvore, dos galhos mutilada, um dia se renova numa festa de brotos, se a raiz lhe foi poupada. Também aquele a quem a sorte fere com mal sem cura, não se desespere, que o espírito triunfa, sobranceiro. Roosevelt, a energia feita História, da cadeira de rodas, teve a glória de o mundo libertar do cativeiro
O AMIGO E O HERÓI – Santino Gomes de Matos
A sinceridade do sentir na simplicidade do dizer, das vozes do coração se façam cantigas, no ar, e tudo seja uma hora plena de comunicação fraterna. Que o gesto do abraço carregue consigo os perfumes raros da amizade, que denunciam a inteligência de almas afins. É como uma clarinada de bronzes, em ecos infinitos, o rebate festivo de alvíssaras, que hoje vivemos. Crescemos na força emocional do acontecimento: cinquentenário de "Lavoura e Comércio", jubileu jornalístico de seu
NOIVOS VITALÍCIOS – Santino Gomes de Matos
(Ao meu amigo Jacob Palis, nas bodas de ouro do venerando casal Jacob – Samis Palis) A poesia aqui é hino feito de ternura e união, em liga exata, que inunda de harmonias cada peito, e em lágrimas felizes se desata. Palavras pouco dizem, qualquer preito de eloquência buscada aqui é nada, inconsequência, gesto sem proveito, respingos no dilúvio da cascata. A poesia aqui é a comunhão que há meiio século mais e mais se apura – dois corações num mesmo coração. O tempo fez o amor
NATAL! NATAL!– Santino Gomes de Matos
Quem transita no Amor levanta, de si mesmo, a aleluia do Acontecimento. Natal! Natal! Quem transita no Amor e tem o sentimento inefável de todos os perdões, acolhe no mesmo abraço de infinita fraternidade até mesmos os pobres herdeiros com quinhões maiores ou menores do destino inapagável de Caim. Natal! Natal! Quem transita no Amor, flagelado do tumulto e das injustiças, fustigado das ambições em desvario, abre na alma um hiato de vigília santa e comparece de mãos estendidas
MEU RECADO – Santino Gomes de Matos
Não seja por meu recado que a tua alma se complique e dês em desatinado crendo o destino ir a pique. À poesia em caracol complicada de torsões prefiro o canto de sol em réstia nos corações. Em vez da imagem torvada dos torvos males da vida peço à benção da alvorada sua graça oferecida. ©2023 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde que citada a autoria.
MENINO-HOMEM – Santino Gomes de Matos
As chaves do meu mistério, recebi-as cedo demais. Antes da aurora, o dia se fez sol. Mal pressenti coisa escondida, anseio, anelo que se persegue nas aventuras do conhecer. O véu do tabernáculo se rasgou e em crua tela se fez retrato, todo um bosquejo, num só instante. E homem feito, amadurecido, sem dúvida fruto temporão, onde o menino, com a sensação de alumbramento? Onde o menino, todo alma e sonho, de um quadro a outro, a pouco e pouco, reunindo em si as descobertas do pr
LOUVAÇÃO
Ponho nesta louvação a essência mesma da verdade, nuinha, original quando em mistério se abriu, a rosa em revelação no fundo de um poço. Que se retire a lâmpada debaixo do alqueire, para que a modéstia não obscureça a virtude, e todos vejam, até mesmo os de escamas nos olhos, até mesmo os de escamas na consciência, pela inveja, pelo despeito, pela ingratidão. Todos vejam o taumaturgo, que teima em fazer-se do tamanho comum, e entretanto avulta nas dimensões de um monumento h
IGREJA DE SANTA RITA
Igreja de Santa Rita de mãos postas na colina. A alma que aqui palpita é sempiterna e divina. Séculos de fé presidindo como atalaia indormida, viu a cidade surgindo, viu-lhe a vida ser mais vida. Do burgo humilde estendeu à metrópole a sagração, pois marca o selo de Deus em nossa destinação. Santa Rita, igreja e praça, compõe da festa a paisagem, com que o céu a terra abraça pra mesma grande homenagem. Quintiliano foi menino de primeira comunhão na igrejinha a quem, num hino,
ÉLAN SECRETO – Santino Gomes de Matos
Élan secreto, afoito em mim: destino direto, som de clarim. Longes do sonho, na árdua conquista, eis a que ponho espora e crista. Galo de briga, a rinha: o mundo. Luta e fadiga, mas o fruto é fecundo. Bênção de santo, corpo fechado, sob este manto, novo cruzado. Gratuitamente, por vocação, sou combatente sem ambição. Em tom secreto, de alma liberta sem baixo teto, sem hora certa... A alma se apruma ergo um mirante. Chapéu de pluma, Athos, avante! ©2023 – Todos os direitos res
DISCURSO-POEMA – TRIBUTO A FIDÉLIS REIS – SANTINO GOMES DE MATOS
Discurso proferido quando da denominação da avenida com o nome do ilustre uberabense Avenida Fidélis Reis Por Santino Gomes de Matos O que em vida se chamou Fidélis Reis, e incorporou o seu nome ao ideal do Brasil redimido pelo trabalho, como a primeira virtude do homem e a grandeza máxima da terra, dentro das coordenadas do nosso destino; o que em vida se chamou Fidélis Reis e pôs na alma a divisa de luz dos Cruzados do Progresso, e pôs no gesto criador a realidade das
CRUCIFIXO DE HOSPITAL – Santino Gomes de Matos
(A Monsenhor Juvenal Arduini, com gratidão.) Preside o Cristo na parede nua. Entretanto, o esplendor de um sol nascente o êxtase dos meus olhos faz que flua da chaga em que Tomé pôs mão, descrente. Lá fora, a vida, o burburinho, a rua. No meu isolamento de doente, a consciência em pânico recua ao tempo do mordaz impenitente. Peso tudo: a irrisão não é exemplo, e satanás com largas reinações na alma que se devera à Fé, por
CATIRA – Santino Gomes de Matos
Deixemos a lira do rei Davi, é hora da catira, que é dança daqui. Pés de retumbo no tabuado. Gestos de chumbo, corpo aprumado. Por muito espaço não me distraio, num só compasso, como entro, saio. Brasil antigo, neste batuque, quem vai comigo, nada de truque, pois devo andar, com sol a pino, todo um destino, por terra e ar. E a dança vara, como poesia rara, do raso ao fundo, o tempo e o mundo... ©2023 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde que citada a a
CADEIRA VAZIA – Santino Gomes de Matos
Não é este o pobre que eu queria na cadeira vazia à nossa mesa. Se já vai noite morta e nenhum outro aparece a bater-nos à porta, não sei como pudesse viver em plenitude o meu Natal. Um pobre, sim, mas em que Jesus transparece com nítido sinal. Que encontra na pobreza mais completa a alegria de ser. E com olhos de profeta desce Deus até nós, fazendo prevalecer sobre as vozes terrenas, tão mesquinhas, a imensa e eterna voz de quem sobre as nuvens em majestade um dia descerá pa
BRANCO DE MEMÓRIA – Santino Gomes de Matos
O bom é fundir-me neste branco, branco abissal da memória, e não ser. É entregar-me ao etéreo, com todas as âncoras levantadas, e a mente, e o coração, e o próprio sentido de existir, em casca de noz, vagando por sobre dilúvios, sem Ararats, sem pombinhas, sem ramos de oliveira denunciadores de um fim, no sem-fim das brancuras do nada. Liberto, inteiramente liberto do meu peso e da minha substância no mundo exterior, que só se impõe e prevalece como uma projeção de nós, para
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