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EX-VOTOS – Santino Gomes de Matos
A sala acanhadinha dos milagres está que não pode mais de ex-votos. Ex-votos humildes, da devoção e da fé dos humildes. Caricaturas. A menina a quem sarou o dente ofereceu ao Senhor do Bonfim uma bochecha de pau, inchada e feia. Há chagas em pernas de madeira, anatomicamente condenadas, impossíveis. Panarícios em dedos grossos, tingidos de vermelho. Olhos hediondos, trabalhados em caraças de cajazeira. São as dádivas pobres dos corações ricos de confiança. O Senhor do Bonfim
PRAIEIRO – Santino Gomes de Matos
Se eu fosse praieiro, teria um leito branco e macio, de areia mais alva que a lua, mais alva que um colo redondo de sereia, se eu fosse praieiro. E os coqueiros teceriam, com as palmas, labirintos de sombra para enfeitar o meu chão. E o vento viria suspirar baixinho, em meu ouvido, num hausto trazido do mar, como um hausto quente da mulher amada.... Se eu fosse praieiro! Do livro Oração dos Humildes ©2022 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde que citad
AQUELA CANTIGA – Santino Gomes de Matos
No seio de outras cantigas, aquela cantiga ficou cantando, num ritmo lento, mole, bamboleante, como um embalo de balanço d'água. Ouço vozes. Ouço ruídos. Epilepsias de Jazz. Cento e cinquenta instrumentos de uma ópera inteira. E o soprano e o tenor e mais o coro em berros. Tudo isso me encharcando a alma, através dos ouvidos. E ainda as desafinações da vida. Barulhos, ruídos, rugidos de mágoa. Dor e desespero. Misérias, misérias. É o canto do mundo que cresce, que sobe aflit
O PAÍS QUE SAIU FORA DO MAPA – Santino Gomes de Matos
Mestre João Antônio, que é feito do Brasil? Do Brasil que o Sr. nos ensinava, entre barricas de bacalhau, no fundo da sua bodega, à esquina da Rua do Meio? – Qual o rio maior do mundo? – E a cidade mais bela? – E a baía mais vasta? – E a laranja mais doce? – E o café melhor? – E o céu mais belo? – E o país mais rico e melhor do mundo? Mestre João Antônio, como o Sr. ficava orgulhoso em ser professor numa terra como o Brasil, que era a primeira em tudo, entre as primeiras! Se
SINHANINHA GOGÓ – Santino Gomes de Matos
Li sempre uma história de bondade no pergaminho de rugas de tua face encerada. Nunca te queixaste das veias quebradas do teu pescoço, do teu gogó. Era menina ainda e obrigavam-te a carregos d'água do rio distante. O teu pote era quase do teu tamanho, equilibrado na rodilha de molambos. E deram-te outro ainda maior, por castigo de o haveres quebrado numa noite de chuva e lama, quando subias a ribanceira ladeirenta do rio. Incharam-te as veias, no esforço sobre-humano, e render
A FILHA DE DONA VIVINA – Santino Gomes de Matos
– Bolotinha de cabra! – Senhor, meu amo! A filha de dona Vivina vinha brincar conosco, os cabelos em cartuchos, encaracolados e negros, como cachos de trevas. Das cadeiras, na calçada, vigiavam-nos. Mas a alegria era tanta e os olhares tão cheios de simpatia, que não lhe sentíamos o peso sobre nós. – Bolotinha de cabra! – Senhor, meu amo! A filha de dona Vivina cavava cacimbinhas na face, quando ria. A casa do juiz golfava luz por todas as janelas. Era um insulto de línguas d
A CALÇADA DO MEU AVÔ – Santino Gomes de Matos
Nas noites de bacorejo dos sapos na lagoa, a calçada do meu avô tinha histórias e coalhada. "Seu" João, "seu" Policarpo e o moleque Catingueira escanchado no peitoril do alpendre de tijolo. E o sapo batendo ferro: tan, tan, tan. E as gias e as rãs, num coro de algazarra, em surriada às estrelas, numa vaia de garotos sapecas. Meu avô conhecia todos os caminhos do céu. A hora em que os "Gêmeos" apareciam, em que o "Cruzeiro" tombava inclinado e a "Arca de Noé" navegava para o s
O MENINO DA VELHA BELA – Santino Gomes de Matos
Fui o último afago de amor que a velha Belarmina levou deste mundo. Por ter ninado o meu primeiro sono, anichou-me, apaixonadamente, no coração octogenário. Mas veio o choro e o vazio de uma longa ausência. A velha Bela, muitas vezes, fazia os braços em berço, para ninar o vento, ninando saudades minhas. Ai, diziam que já estava caducando! Não lhe saía de dentro da cabeça de carapinha branca a lembrança do "meu menino", não se delia na sua retina embaciada a imagem minúscula
SAUDADES DA MORTE QUE NÃO TIVE – Santino Gomes de Matos
Sou um ser falhado no céu e incontentado na terra. Minha mãe tinha uma inveja santa das outras mães com anjinhos na pátria celestial. Eles se encarregavam de preparar bem junto ao trono de Deus um assento de glórias às mães que ficavam no mundo, chorosas mas consoladas. E eu não satisfiz à minha mãe um desejo de esperanças supremas, quando me marcou para seu arcanjo, para seu mensageiro inocente e pulcro, à direita de Deus Padre. O menino fraco e doente, tão do céu, tão da ou
"CAJADOS DE SÃO JOSÉ" – Santino Gomes de Matos
Os "cajados de São José" floriam na praia ribeirinha. E era aquele luxo de flores do mato, na paisagem familiar dos banhos matinais, que me enchia os olhos de poesia. Ninguém tocava nas flores sagradas. Reservavam-se para as novenas de março, na sala grande do sítio de meu avô. As velas de carnaúba amoleciam em lágrimas de cera preta, defronte do oratório de pau, com imagens de gesso. No centro da mesa, o Santo Patriarca. E por entre as lambidas das chamas incertas, que o ven
BEIRA DE RIO – Santino Gomes de Matos
Búzios e intãs enfeitam a areia morena. E pintas encarnadas de caroços de mulungu vermelham às centenas, aos milhares, como se a areia do rio estivesse com sarampo. As moitas de jeramataias espalham-se densas, agachadinhas no chão, para sombras alcoviteiras, no choco de amores selvagens. Os bambuais castanholam alto, devagarinho. Ou numa estralada brava matraqueiam, quando o vento enxerido vem, correndo, anunciar a chuva. – Galinha cheia! – Cheia! – Assada ou cozida? – Cozida
MANEIRO PAU... MANEIRO PAU... Santino Gomes de Matos
A roda de jogadores se estendia imensa, aos meus olhos de criança. Cada parceiro manejava um pau curto e roliço, batendo para a direita, noutro pau, e já aparando, na esquerda, a paulada que vinha. Agilidade, destreza, num ritmo perfeito, igual, seguro, vibrando as pancadas e as cantigas, através das ondas de luz do plenilúnio. E a roda rodava: “Maneiro pau, maneiro pau...” "Meneio o pau" e não "maneiro pau" – corrigiria mais tarde o mestre de português. Mas o estribilho diz
RUA GRANDE – Santino Gomes de Matos
A Rua Grande desistiu de crescer mais. Parou, num gesto de desânimo, no meio da ladeira da Igreja do Monte. Também do outro lado, não teve ânimo de estirar-se até aos mata-pastos da várzea, na linha reta do casario. Fez-se contemplativa, mística, filantrópica, e agasalhou, nos sobradões mal-assombrados, todos os morcegos e todas as andorinhas vagabundas. Tem, agora, uma vida em câmara lenta, com uma dezena de procissões por ano, no passo calculado dos acompanhamentos. Perdeu
ARACATI – Santino Gomes de Matos
O Aracati acabou de trazer as jangadas à praia. Vem ainda úmido da maresia e orgulhoso de ter montado nas costas dos tubarões. Acaricia, ligeiro, a cabeça dos filhos dos pescadores e lança-lhes areia nos olhos, numa intimidade atrevida. Está com pressa. Não pode mais dançar, em redemoinho, a sua ronda predileta. Toma fôlego e se alteia, com a asa gigante roçando o céu. Levanta uma nuvem densa de argueiros que se agitam e pululam, como micróbios, no corpo pálido e melancólico
A NOITE QUE DE NOVO VEIO AO MEU ENCONTRO –Santino Gomes de Matos
Nas noites de minha vida, uma treva maior e mais pressaga enche aquela noite doente de mal-assombros. O som de uma corneta boiava por sobre a calma estúpida da escuridão. Não era, entretanto, o toque marcial de um clarim fustigante. Era o som que rolava em notas sonâmbulas, a me encher do horror supersticioso do que esmorece, do que sucumbe, no desalento do fim. Uma asa forte de vento batia, com palpitação de cousa viva, na laranjeira do quintal. E as corujas do campanário pr
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