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A TARDE QUE SE FEZ NOITE NO CORAÇÃO DO POETA – Santino Gomes de Matos
O silêncio do ar que cisma, esmando um rumo no céu. Nas sete cores do prisma, a tarde ainda esplendeu. Asa tonta de andorinha, palpitando, fatigada, do telhado se avizinha de humilde e negra morada. (A filha ao colo, o operário que não teve o que jantar, olha a ave, e perdulário, não lhe quer pouso cobrar.) O sol – a hóstia de fogo que a montanha comungou – como um nababo no jogo, um tesouro dispersou. (A velhinha suspirosa, acocorada ao batente, a riqueza vaporosa vê sumir-s
COURAÇA DO INFINITO – Santino Gomes de Matos
Encouraça-te de infinito e perde-te em abismos dourados. O mundo é isso que vês – o sem remédio das catástrofes avassalantes. Acolhe-te ao ventre de qualquer baleia, que Nínive já não paga a pena de ser salva. As cataratas de fogo se despejam com violência e nenhuma voz de profeta torcerá o destino das condenações supremas. Inumeráveis mares mortos, ainda mais mortos do que os de Sodoma e Gomorra, já se coalham invisíveis no invisível do Tempo. Chovem desgraças nas almas, com
RECRUTA CEARENSE – Santino Gomes de Matos
À glória imortal de Antônio Sales, o maior poeta do Ceará. Luto de galhos nus na mataria seca. E o grito-choro das graúnas e um voo rasteiro de marreca, que busca, em vão, o lodo dos pauis. Só as copas redondas dos juazeiros são, no alto, um oásis de verdor. E abutres carniceiros, entre as folhas de espinho, espreitam, vivamente, o triste error dos espantalhos-vivos que se arrastam na faixa do caminho. A bem dizer, o vento é que os conduz, na incerteza dos passos tropicantes,
LEGIÕES DO SONHO E DA LOUCURA – Santino Gomes de Matos
(Ano da última Grande Guerra) As últimas vibrações, somos nós, irmãos poetas, desta Alma que agoniza num crepúsculo do Mundo. Grandes ou pequenos, pobres ou ricos de inspiração e ternura, somos nós os últimos olhos voltados para a vida que gira no carrossel destes tempos delirantes, que prenunciam os tempos de depois. Amanhã, tudo acontecerá diferente e só compreenderemos o avesso das cousas, o avesso de nós mesmos. Irmãos poetas, não haverá sequer recantos de sombra, onde se
O VAZIO – Santino Gomes de Matos
O vazio veio das profundezas do nada e cavou abismos engolidores em minha vida. Desejos, aspirações e impulsos de ser hão de dar sempre nesta zona de vácuo. Sinto tentáculos de polvo no meu coração. Vejo bocas de trevas abertas no meu caminho. E em toda a parte o vazio... O vazio, que envolve os domínios do meu ser, que anula os estos da minha coragem e dá de beber, com o sangue das minhas veias, às máquinas danadas de sucção, como os tentáculos dos polvos. Todo chão que piso
TOQUE DE DESPERTADOR – Santino Gomes de Matos
O vento que traz a chuva do outro lado do monte, também traz uma saudade do outro lado da Vida. Esperem aí! Deixem-me ver se consigo o encontro dessa lembrança. Somente sei tatear de olhos fechados e a passos lentos, como quem busca uma sombra maior entre tantas sombras confusas. O vento que traz a chuva do outro lado do monte, também traz uma saudade do outro lado da Vida. Eu tinha uma tarde igual a esta, com a minha janela escancarada para um horizonte de cinzas. E este me
O SONHO DO TIRANO – Santino Gomes de Matos
(Na Grande Guerra) Aquele instante caiu para a alma deserta do tirano, como uma nesga macia de azul do céu primaveril. E vozes distantes acordaram dentro dele, em harmonias, corrigindo os ângulos duros do seu espírito, para a penetração de uma suavidade misteriosa, que lhe abria clareiras purificadas, em todo o ser. E o tirano viu que as suas estradas novamente se enfeitavam de auroras e de ninhos. Que o ar da manhã se reconciliava com seu perfil hierático e lhe trazia, a mod
UM DIA ASSIM – Santino Gomes de Matos
Um dia assim, crepuscular e vago, dolente, reclinado em plumas e veludo, tem, para mim, a sugestão de um lago, de águas polidas, como espelho mudo. Faz-me lembrar castelos desfeitos, quietações de paz, quando a alma ingênua me afofava leitos de ternuras e crenças virginais. E contemplando o adejo breve de asas boêmias de andorinha, saudades mando ao tempo leve, em que sentia igual à minha, a alma da flor, a alma do vento, no voo azul de um pensamento. Manchas de sol – são hó
INSÔNIA – Santino Gomes de Matos
(Na Grande Guerra) Foi, sem dúvida, porque o rei Herodes recomeçou a matança dos inocentes. E um grande, um imenso clamor de mães subiu da terra para a noite sem ecos. Foi, sem dúvida, porque todos os astros, no insondável dos universos, parecem estar derramando sobre mim o mesmo sangue grosso da humanidade imolada no mais pavoroso dos sacrifícios. Foi, sem dúvida, por causa das vagas rolantes dos sofrimentos anônimos, que nos envolvem e nos sufocam, que nos põem no peito a a
CAMPO DAS AMORAS – Santino Gomes de Matos
Ai dos que acamparam no meio da planície, tendo todos os rumos nos horizontes sem fim e nenhum caminho nos passos hesitantes e tolhidos! Os grandes céus não oferecem sombras ou clemências. São mudos e impassíveis, na sua limpidez de ágata. E, quando se cobrem do colchão das nuvens, despejam chuvas e saraivadas, raios e trovões. Em todo caso, ainda é o tempo quem lhes dá o sentimento de mudança das coisas. Miséria dourada de sol, miséria com lama, com frio, nas pocilgas imunda
E JESUS ABENÇOOU A MULTIDÃO – Santino Gomes de Matos
Veio do fundo de um século de renovações esse gesto alto e divino, que se imobilizou no espaço. E – branco lírio moribundo – a mão de luz que o traçou desfaleceu no triste desalento dos sacrifícios inúteis. O gesto era de paz, de amor, de misericórdias, e visava ao milagre brando das brandas compreensões. Vinha perfumado de todas as crenças inocentes, das festas aurorais de uns olhos de criança, da noite inconsolável em que se apaga o último sonho de um coração octogenário. T
VENCIDO – Santino Gomes de Matos
De que vale lutar, quando se tem no próprio ser um inimigo atento, que não dá tréguas, mesmo um só momento, para a conquista do sonhado bem? Há um penar dentro em mim. Penar que vem de um mal sem cura, de um padecimento, que quanto mais combato, mais aumento, e em que sucumbo, quando venço alguém. Tem raízes de carne a minha dor. Sinto-a crescer do fundo do meu peito, e constringir-me a alma com furor. Quero extirpá-la. E, num esforço vão, somente alcanço, para meu proveito
O NATAL DAS SECAS – Santino Gomes de Matos
Não haverá natal este ano. O Menino-Deus dormindo nas palhinhas, entre o burro e o boi de pano, não apareceu. Não veio, das lapinhas, estender os braços e o sorriso ao povo. Com certeza, nasceu noutro lugar. E, ao dizê-lo, me louvo no aspecto miserável destas ruas de mulheres com olhos de caveira, espantadas de fome, cenografando a feira da miséria, da dor, do desconforto... Com certeza Jesus já subiu o seu horto. Vejo a rua escarrada de mendigos. Anda um gemer de prece em ca
ORAÇÃO DOS HUMILDES – Santino Gomes de Matos
Venha a canção áspera e rouca que rebenta do peito tostado dos jangadeiros, toda vibrada em bordões. O mastro da jangada, enrolado no lençol branco da vela murcha, é como um círio apagado de um culto morto. Os pescadores cantam para as vagas, para as garças marinhas, para a noite, que vai vestir o seu vestido mais lindo, de gata borralheira. Venha a canção dos jangadeiros do mar. Venham cantigas da beira do rio, das lavadeiras que deixaram em casa os filhinhos e os ninam de l
DISTÂNCIAS – Santino Gomes de Matos
O professor Piccard subiu à estratosfera e explorou também o fundo do oceano. Eu, para aterrar-me em assombros de vácuos ou em profundezas sem limites, basta-me penetrar as regiões perdidas do meu íntimo. Do livro Procissão de Encontros ©2023 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde que citada a autoria.
SELO DE HUMANIDADE – Santino Gomes de Matos
Que ninguém saiba que eu senti o mundo, que eu marquei a minha alma com um triste selo da humanidade. Há tanta desgraça nua, aterradoramente nua, se mostrando, que não vale a pena vestir de palavras qualquer emoção. Tenho receio de não ser imenso como o próprio universo de misérias. E prefiro ficar perdido dentro de mim, com essa paisagem de calvários, que é a safra trágica de uns olhos de amor para um coração doente do sentimento da Vida. A minha ternura é desencorajada e tr
O VALE DE LÁGRIMAS DA VIDA – Santino Gomes de Matos
Sinto, às vezes, que me disperso nas coisas no mundo, no cotidiano, nas criaturas. Não habito mais em mim, despersonificado. Sou parte de um corpo imenso. Ajo, e penso, e anseio, e sofro, pelos músculos, pelo cérebro, pela sensibilidade de uma multidão de seres diferentes. E é justamente nessa dispersão de mim mesmo que encontro paradoxalmente, um termo de comunhão universal, para resumir num gemido de dor, o vale de lágrimas da Vida. Do livro Procissão de Encontros ©2023 –
MENINO ÓRFÃO – Santino Gomes de Matos
Dentro da cor desmoralizada do teu terninho ruço, tingido da pior tinta preta que se pode adquirir a magros centavos, menino órfão, sinto e lamento o teu desamparo, com um mundo em tua frente, imenso, intratável, eriçado de egoísmos agudos, como um cerrado de cáctus! Quando os olhos de benevolência se fecharam, mil olhos de interesse já te rondam e te perseguem. Quem sabe lá dos sonhos do pai morto, que renasciam no filho pequenino, à maneira de cepas velhas de uma velha vida
MÃE – Santino Gomes de Matos
Ó pobre mãe, de humilde cochicholo, que ao filho nu só vestes de carinho, não valem o aconchego do teu colo os berços ricos, em frouxéis de arminho. Em tua humanidade me consolo. É miséria sem par tão triste ninho... Mas, quando os olhos pelo mundo rolo, mais puro amor não vejo ou adivinho. Guarda, guarda teu pobre querubim, que há lindos querubins da cor da noite, que há lágrimas com preço de rubim. Um novo mundo vai surgir do pranto, da fome, da miséria em triste açoite, da
VENTO DO MORRO – Santino Gomes de Matos
O morro calvo sonha, na tristeza sem par dos aleijões sem cura. Contempla o cimo verde da montanha, que canta, na esperança da verdura, e sente que, em seu seio, traga apenas a tristeza do luto e da orfandade, a fome, a dor, as indizíveis penas, que sofrem caridade. Já teve outrora cardos, teve espinhos, que o fogo devorou. E a ilusão das flores e dos ninhos, em renovos, também lhe palpitou. Até que certo dia, vida nova, mas estéril, mas triste e dura e crua, foi-lhe subindo,
BANDEIRA MÍSTICA – Santino Gomes de Matos
Renovemos a luta, renovemos. A derrota suprema é a covardia de negar-nos ao sonho em que não cremos, como o azeite, à lâmpada vazia. É preciso sentir que ainda ardemos numa agonia, após outra agonia, sem nunca abandonar os frágeis remos do precário batel da Fantasia. Embora consumidos de degredos, sonhemos, no delírio das estrelas, a ilusão dos últimos segredos. Da alma ferida rompa uma canção... E no mastro de loucas caravelas – Bandeira ao vento – acene o coração. Do livro
PRIMEIRO ENCONTRO – Santino Gomes de Matos
No meio da noite, quem vem, como eu, inquieto, em vigília, buscando um sentido na fuga do céu? No meio da noite, quem traz a consciência de um fim para a Vida, tão longe dos olhos, tão perto da alma? No meio da noite, há sombras na sombra, que gritam, que clamam os nossos pavores, a nossa esperança. No meio da noite, estou tão sozinho! Do livro Procissão de Encontros ©2023 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde que citada a autoria.
LUMINÁRIAS – Santino Gomes de Matos
Nossa Senhora das Candeias, padroeira dos míseros ceguinhos, que acendes lá no céu as luas cheias e abres clareiras, pelos maus caminhos; quando passaste, em galas, pelas ruas, e lanternas de cor, em profusão, abriram gemas nas paredes nuas, para o culto da tua devoção; eu fui aquela mão pobre e cativa, que acendeu, num retângulo de porta, uma velinha triste e quase morta, na luz votiva. Nossa Senhora das Candeias, perdoa o meu pecado, se é pecado. Ela é dona também das luas
DESENCONTRO COM A POESIA – Santino Gomes de Matos
Vais perder-me e eu vou também perder-te. Na túnica do Tempo se recorta a mortalha das nossas ilusões. E há gelo, em meu olhar, agora, ao ver-te, e a minha imagem é já imagem morta, nas tuas devoções. Apagam-se na curva do caminho os sinaleiros todos, que nos marcavam rumo ao Ideal. E a minha estrada se desfaz em lodos e em tua alma calou-se o passarinho que a enchia de um riso matinal. Por quê? Nem sei, nem sabes, e aqui vamos, como quem vai no fim de uma jornada. E o mundo
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