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DEDICATÓRIA – À YONE – SANTINO GOMES DE MATOS
À Yone, o que de mais puro contiverem estas páginas, como oferenda de um amor que resume todo o meu estímulo e todo o meu ideal. Santino De Santino para Yone Dedicatória do livro Oração dos Humildes ©2023 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde que citada a autoria.
NA MANHÃ CLARA – Santino Gomes de Matos
O apito cresceu alto, como uma seta fina projetada, que varasse o forro de veludo da manhã. Espatifou-se. Os ecos transformaram-no em cacarias de som. Apesar disso, ficou gritando, dentro de mim, o seu grito ilimitado de distâncias. Quando foi? Quando será? A indecisão me tolhe e me equilibra, entre o passado e o futuro. Sei que vim, sei que sigo, que caminho, às vezes sem vontade, como um boneco desengonçado e feio, que obedece mal aos cordéis, num palco fantástico de autôm
CANÇÃO CARNAVALESCA – Santino Gomes de Matos
As vozes das meninas afinam com o ar limpo da manhã. Cantam canções carnavalescas. Mas o "lig-lig-lé" é apenas um pretexto para os sons, para o trinado claro e puro das gargantinhas entoadas e frescas. As crianças cantam como cantam as patativas. Por uma vocação de alegria. Porque sentem a alma leve harmonizar-se com as coisas. Porque querem um motivo rítmico de si mesmas, no ambiente que florescem com a sua presença. As canções carnavalescas passam pelos lábios das crianças,
EXÉQUIAS – Santino Gomes de Matos
(A Quintiliano Jardim, o exímio poeta das "Cem Quadras") Cantigas d'água, num domingo quieto, mole de tédio e de penumbras vagas, como me falam de um pesar secreto, de uma saudade de distantes plagas! Faz muito tempo que o tremendo veto do Destino se deu, para que tu tragas, ó chuva triste, num chorar discreto, mais pranto ainda a ressequidas chagas. Teus dedos finos, no bater das telhas, acordam o tropel das horas velhas, que adormeceram no meu coração. E outra vez, neste cé
ORAÇÃO – Santino Gomes de Matos
O musgo que amacia e a fonte que refresca, como faltam à rocha nua erguida, faltam à minha vida! Senhor! Dai-me a dureza dos rochedos nus. A inconsciência estúpida e brutal do que não sente o bem, do que não sente o mal, e, intacta, devolve a própria luz. Onde a voz de acalanto do meu berço? Onde o ninho de paz dulcificado para vocação de amor que não exerço, num sonho que hei de ver sempre adiado? Senhor! dai-me a alta surdez dos monolitos. Que eu não me escute nunca e não
NOITE GORDA – Santino Gomes de Matos
Noite gorda de sombra e de pecado. Não há céu, há escuro. Não há homens, há animais. Nunca senti tanto o peso da treva. Tenho a sensação de uma arroba sobre o peito, de desalento, de asfixia, de pesadelo. Ora, vamos para a claridade das avenidas. Vamos para as rodas alegres, onde se discute futebol e Greta Garbo e a guerra do futuro. Veja como os homens são felizes na desgraça. Acostumaram-se. Se há terremoto, melhor para os passos da dança. Até mesmo a terra ajuda, valsando
PURO ESPÍRITO – Santino Gomes de Matos
O meu momento virá, e a tarde se enfeitará de frutos de ouro e de marfim, como uma árvore mágica de Aladino. Terei apenas que estender a mão, para colheitas mirabolantes. E a Beleza me ficará ao alcance dos dedos, afinando o pentacórdio dos meus sentidos. Participarei do milagre da levitação dos eleitos. Serei livre e despreocupado como os ventos das planícies. Como um barco solto de todas as amarras, que voga à discrição, em oceano sem fim. Desaparecerão os limites e as fron
TORPOR – Santino Gomes de Matos
Hora morna de morno desalento. A crueza da luz que se derrama é uma moleza, um espreguiçamento, que vem das cousas para o nosso tédio, para um desejo agudo, sem remédio, que adormece tranquilo e já não clama, e é quase paz e é quase esquecimento. Hora perdida de silêncios vagos, multiplicados no silêncio ambiente. A apatia budística dos lagos o nosso ser invade, neutralizando toda a intensidade da alma que vive, e sofre, e espera, e sente. Hora quente de sol e de mormaço, que
PAISAGEM – Santino Gomes de Matos
Donde vem essa névoa em que me perco, em que afundo uns olhos penetrantes, no esforço de ver e não vejo? A paisagem das estepes anemiza o sol do equador. Tudo de gelo, tudo em coberta de neve. E um frio agudo, varando o corpo, varando a alma. Um vento de navalha assobia como um "knout". Adivinho homens de chicote em punho, ferozes, carrancudos, com braços automáticos de êmbolos. Adivinho homens genuflexos sobre suas próprias chagas dos joelhos sangrando. A tatuagem sombria do
VALE DE JOSAFÁ – Santino Gomes de Matos
Os horizontes deixaram de ter uma significação no meu Destino. Já não aguardo as manhãs e as tardes com um pressentimento de chegada. Emudeceu o "vem-vem" que cantava na minha alma, anunciando a vinda de uma felicidade grande, para a realização do meu sonho. E as horas caem dentro da minha vida como as folhas secas de uma árvore de verão na debandada boêmia das cousas soltas, que circulam livremente, sem pagar dízimos de importância. Os meus olhos aprofundam atitudes interior
MOSAICO – Santino Gomes de Matos
A força dos combates que sustento, para vencer-me, para fixar-me no equilíbrio de uma personalidade, sempre me vem dos ódios pequeninos. Dos venenos em dosagem diminuta, que não matam. Pelo contrário, instilam em nosso peito, uma piedade enorme de todo o gênero humano. É com essa compaixão pela fraqueza alheia, com o desprezo pelo gesto que amaldiçoa, pela mão que apunhala na sombra, que eu formo o mosaico estranho do meu ser. É feito das lições mirins de cada dia, no trato d
PEREGRINO – Santino Gomes de Matos
Bem sei que vem de muito essa jornada, na incerteza do bem que em vão procuras. Do bordão, ao som cavo, pela estrada, semeias prantos, colhes amarguras. Não te responde o céu à voz magoada. Em socalcos, grotões, sombrias luras, buscaste, mas debalde, uma pousada, e dentro de ti próprio te enclausuras. Ao vento, ao frio, à tempestade exposto, – estafermo da dor – errando vais, se é sol nado, que importa se é sol posto? A luz do dia não te aclara a alma nem mais trevas também,
O SEMEADOR – Santino Gomes de Matos
As mãos do semeador estavam já vazias. Grão a grão se lhe fora, e sempre entre carinhos, o celeiro de uma alma aberta às alegrias de pôr marcos de luz em todos os caminhos. Quanta vez, ao furor de negras invernias, foi como o sol que faz cantar os brandos ninhos! Quanta vez penetrou mal-assombradas vias, a seguir de uma dor os torvos escaninhos! Mas, um dia, sentiu que o passo lhe afrouxava. E a luz que distribuíra, amigo e compassivo, aos seus olhos fugia, aos seus olhos fal
DESEJOS – Santino Gomes de Matos
Se eu fosse aquela abelha pequenina que anda de flor em flor, sorveria de um seio de bonina alívio à minha dor. E depois, com o mel do meu cortiço, entrava as pobres casas, cujas portas são feitas de caniço, e onde não ardem brasas. Num pedaço de chão, escuro e imundo, uma agonia geme... Vela um pesar de mãe, mudo e profundo, junto ao filho que treme. Se eu fosse aquela abelha pequenina, havia de lá entrar, para as gotas de orvalho da bonina, nos lábios do enferminho lhe deix
FAROL – Santino Gomes de Matos
O gigante de pedra abriu o olho feroz. Varreu o mar e incandeou os tubarões. As corujas, aflitas, pensaram que era o sol que andasse sonâmbulo, na noite, e, tontas de medo, calaram o agouro alto de rasgar mortalhas. A paisagem do mar humanizou-se. A pedra do farol, a luz, o céu que se fechava em zangas de borrasca. O faroleiro acendeu o seu cachimbo. Não pensa, não sonha, não medita. É apenas um homem que fuma. É apenas um homem... E todas as coisas derredor se espiritualizar
SEGUNDA CLASSE – Santino Gomes de Matos
Bem junto dos seus olhos, as ondas sobem, crescem. Águas salobras, águas sujas, águas feias. O sol desonerou a tinta do mar. Borrões de luz no verde escuro da ressaca. Borrões enovelados que dão vertigens. Não há horizonte que a vista me alonguem. E eu olho pra mim, me escuto, me palpo, inquieto de um rumo. Há um céu lá por cima (eu sei mas não vejo). Talvez seja agora uma concha vazia... Talvez seja sempre um sonho de espaço. Ele é passageiro da classe pior. Nem luz de amura
CAIS DO PORTO – Santino Gomes de Matos
As luzes riem claro, sem pejo. Mas o "ficus benjamin" acoitou toda a treva em sua copa e abriu no chão um olho redondo de fuligem. Os malandros querem mais uma noite de aventuras. Tentam passar a perna na miséria, procuram enganar a fome. Se não fosse o "ficus benjamin", quebrariam as lâmpadas irônicas, a pedradas. Querem sombra, querem treva, querem escuro para os trajos mulambentos, para os tamancos histéricos, nas pedras. Eles sabem que a mão do guarda é pesada e não há di
SARJETA – Santino Gomes de Matos
O barco de papel desce na água suja. A mão esperta do moleque o desencalha, desvia-o dos obstáculos, orienta-o. A chuva foi um prazer para os garotos de rua. Saíram todos para armar embarcações de jornal e soltá-las na enxurrada, em apostas curiosas, como se fossem corridas de regatas. Eles querem imitar a vida, sem nada conhecerem da vida. São macaquinhos humanos do Grande Circo Universal. Assobiam, fumam pontas de cigarros. Fazem dos braços direções de autos invisíveis e bu
FLAGELO – Santino Gomes de Matos
O dia todo pela vila andara, com a sua dor em procissão. Mais parecia o seu filhinho torto, a teratologia de um boneco que um lápis mau criara para a feira de amostra dos abortos. Ninguém a viu e a todos se mostrou, esquálida, desnuda, suplicante, com um manto de sol ironizante como a púrpura dos ombros do Senhor. À noitinha, volvendo ao pouso triste, a custo se arrastava. Lá, a filha mais velha, tal um cristão antigo sobre a grelha, numa cama de vara agonizava. Meu Deus! Se
ORAÇÃO DOS HUMILDES – Santino Gomes de Matos
Venha a canção áspera e rouca que rebenta do peito tostado dos jangadeiros, toda vibrada em bordões. O mastro da jangada, enrolado no lençol branco da vela murcha, é como um círio apagado de um culto morto. Os pescadores cantam para as vagas, para as garças marinhas, para a noite, que vai vestir o seu vestido mais lindo, de gata borralheira. Venha a canção dos jangadeiros do mar. Venham cantigas da beira do rio, das lavadeiras que deixaram em casa os filhinhos e os ninam de l
VENTO DO MORRO – Santino Gomes de Matos
O morro calvo sonha, na tristeza sem par dos aleijões sem cura. Contempla o cimo verde da montanha, que canta, na esperança da verdura, e sente que, em seu seio, traga apenas a tristeza do luto e da orfandade, a fome, a dor, as indizíveis penas, que sofrem caridade. Já teve outrora cardos, teve espinhos, que o fogo devorou. E a ilusão das flores e dos ninhos, em renovos, também lhe palpitou. Até que certo dia, vida nova, mas estéril, mas triste e dura e crua, foi-lhe subindo,
EX-VOTOS – Santino Gomes de Matos
A sala acanhadinha dos milagres está que não pode mais de ex-votos. Ex-votos humildes, da devoção e da fé dos humildes. Caricaturas. A menina a quem sarou o dente ofereceu ao Senhor do Bonfim uma bochecha de pau, inchada e feia. Há chagas em pernas de madeira, anatomicamente condenadas, impossíveis. Panarícios em dedos grossos, tingidos de vermelho. Olhos hediondos, trabalhados em caraças de cajazeira. São as dádivas pobres dos corações ricos de confiança. O Senhor do Bonfim
PRAIEIRO – Santino Gomes de Matos
Se eu fosse praieiro, teria um leito branco e macio, de areia mais alva que a lua, mais alva que um colo redondo de sereia, se eu fosse praieiro. E os coqueiros teceriam, com as palmas, labirintos de sombra para enfeitar o meu chão. E o vento viria suspirar baixinho, em meu ouvido, num hausto trazido do mar, como um hausto quente da mulher amada.... Se eu fosse praieiro! Do livro Oração dos Humildes ©2022 – Todos os direitos reservados. Permitida a divulgação, desde que citad
OLHOS MORTOS DENTRO DA TARDE – Santino Gomes de Matos
Houve no beco um tropel de alarme e de tumulto. Por que levam Leocádia quase a correr? Um soluço cansado, que arrefece e se quebra em queixas intermitentes, persegue o caixão branco e azul, azul e branco, branco e azul, azul... Cores de virgindade, cores dos destinos sós e puros, pois Leocádia, morta e virgem, aparecerá estrela no engaste azul do firmamento. Não. Ela não conhecia Bilac. Era simples, da simpleza evangélica do seu quarteirão iletrado. Mas tinha um coração com i
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